quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Crônica, um gênero brasileiro

Nas fronteiras longínquas da literatura, ali onde os gêneros se esfumam, as certezas vacilam e os cânones se esfarelam, resiste a crônica. Nem todos os escritores se arriscam a experimentá-la, e os que o fazem se expõem, muitas vezes, a uma difusa desconfiança. Para os puristas, a crônica é um "gênero menor". Para outros, ainda mais desconfiados, não é literatura, é jornalismo – o que significa dizer, simples registro documental. Alguns acreditam que ela seja um gênero de circunstância, datado – oportunista. Não é fácil praticar a crônica.

Definida pelo dicionário como "narração histórica, ou registro de fatos comuns", a crônica ocupa um espaço fronteiriço, entre a grandeza da história e a leveza atribuída à vida cotidiana. Posição instável, e nem um pouco cômoda, em que a segurança oferecida pelos gêneros literários já não funciona. Lugar para quem prefere se arriscar, em vez de repetir. A crônica confunde porque está onde não devia estar: nos jornais, nas revistas e até na televisão – e nem sempre nos livros. Literatura ou jornalismo? Invenção, ou uma simples (e literal) fotografia da existência? Coisa séria, ou puro entretenimento?

Supõe-se, em geral, que os cronistas digam a verdade – seja o que se entenda por verdade. Não só porque crônicas são publicadas na imprensa, lugar dos fatos, das notícias e da matéria bruta, mas também porque elas costumam ser narradas na primeira pessoa, e o Eu sempre evoca a idéia de confissão. E ainda porque vêm adornadas, com freqüência, pela fotografia (verdadeira!) de seu autor.

Então, se o cronista diz que foi à padaria, ou que esteve em uma festa, aquilo deve, de fato, ter acontecido, o leitor se apressa a concluir. É uma suposição antiga, que vem dos tempos do Descobrimento, quando os cronistas foram aqueles que primeiro transformaram em palavras a visão do Novo Mundo. Cronistas eram, então, missivistas empenhados em dizer a verdade, retratistas do real.

Contudo, e esse é seu grande problema, mas também sua grande riqueza, a crônica é um gênero literário. Não é ficção, não é poesia, não é crítica, e nem ensaio, ou teoria – é crônica. As crônicas históricas do passado, relatos de viajantes e de aventureiros, pretendiam ser apenas um "relato de viagem". Aproximavam-se, assim, do inventário, do registro histórico e do retrato pessoal, e ainda da correspondência. Essas narrativas estavam mais ligadas à história que à literatura. Tinham, antes de tudo, um caráter utilitário, pragmático: serviam para transmitir aquilo que se viu.

No século XIX, com a sofisticação dos estudos históricos, e também com a expansão da imprensa, a crônica se afastou do registro factual e se aproximou da literatura e da invenção. Nossos primeiros grandes cronistas – Alencar, Machado, Bilac, João do Rio – foram, antes de tudo, grandes escritores. Eles descobriram na crônica o frescor do impreciso e o valor do transitório. E a praticaram com regularidade e empenho.

Gênero brasileiro
Mas foi ao longo do século XX que a crônica se firmou entre nós, assumindo posturas e feições realmente próprias. É no século XX que ela se torna – nas mãos de cronistas geniais como Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Carlos Oliveira, Sérgio Porto, Rachel de Queiroz, Fernando Sabino, Henrique Pongetti – um gênero brasileiro. Ou, dizendo melhor: que ela se adapta e se expande no cenário da literatura brasileira.

Isso não fala, contudo, nem de uma identidade, nem de um modelo. Ao contrário: o que marca a crônica brasileira é que, em nossa literatura, ela se torna um espaço de liberdade. Qual escritor brasileiro, no século XX, teve o espírito mais livre que Rubem Braga? Quem mais, desprezando as normas e pompas literárias, e com forte desapego aos cânones e aos gêneros, apostou tudo na crônica – vista como um gênero capaz de jogar de volta a literatura no mundo?

A grande novidade da crônica que se firmou ao longo do século XX no Brasil é exatamente esta: sua radical liberdade. Embora abrigada nos grandes jornais e depois reunida em livros, ela já não tem compromisso com mais nada: nem com a verdade dos fatos, que baliza o jornalismo, nem com império da imaginação, que define a literatura. A crônica traz de volta à cena literária o gratuito e o impulsivo. O cronista não precisa brilhar, não precisa se ultrapassar, não precisa surpreender, ou chocar; ele deseja, apenas, a leveza da escrita.

Gênero anfíbio, a crônica concede ao escritor a mais atordoante das liberdades: a de recomeçar do zero. Quando escreve uma crônica, o escritor pode ser ligeiro, pode ser informal, pode dispensar a originalidade, desprezar a busca de uma marca pessoal – pode tudo. Na crônica, ainda mais que na ficção, o escritor não tem compromissos com ninguém. Isso parece fácil, mas é freqüentemente assustador.

Pode falar de si, relatar fatos que realmente viveu, fazer exercícios de memória, confessar-se, desabafar. Mas pode (e deve) também mentir, falsificar, imaginar, acrescentar, censurar, distorcer. A novidade não está nem no apego à verdade, nem na escolha da imaginação: mas no fato de que o cronista manipula as duas coisas ao mesmo tempo – e sem explicar ao leitor, jamais, em qual das duas posições se encontra. O cronista é um agente duplo: trabalha, ao mesmo tempo, para os dois lados e nunca se pode dizer, com segurança, de que lado ele está.

Na verdade, ele não está em nenhuma das duas posições, nem na da verdade, nem na da imaginação – mas está "entre" elas. Ocupa uma posição limítrofe – e é por isso que o cronista inspira, em geral, muitas suspeitas. Os jornalistas o vêem como leviano, mentiroso, apressado, irresponsável. Os escritores acreditam que é preguiçoso, interesseiro, precipitado, imprudente, venal até. E o cronista tem que se ver, sempre, com essas duas restrições. Uns o tomam como uma ameaça à limpidez dos fatos e ao apego à verdade que norteiam, por princípio, o trabalho jornalístico. Outros, por seus compromissos com os fatos e com as miudezas do cotidiano, como um perigo para a liberdade e o assombro que definem a literatura.

E assim fica o cronista, um cigano, um nômade a transitar, com dificuldades, entre dois mundos, sem pertencer, de fato, a nenhum dos dois. Um errante, com um pé aqui, outro ali, um sujeito dividido. E o leitor, se tomar o que ele escreve ao pé da letra, também pode se encher de fúria. Como esse sujeito diz hoje uma coisa, se ontem disse outra? Como se descreve de um jeito, se ontem se descreveu de outro? Onde pensa que está? Quem pensa que é? Mas é justamente essa a vantagem do cronista: ele não se detém para pensar onde está, ou no que é; ele se limita a sentir e a escrever.

O cronista conserva, desse modo, os estigmas negativos que cercam a figura do forasteiro – aquele que sempre desperta desconfiança e em quem não se deve, nunca, acreditar inteiramente. Vindo sabe-se lá de onde, inspira uma admiração nervosa – como admiramos os mascarados e os clowns, sempre com uma ponta de insegurança, e um sorriso mal resolvido no rosto. Errante, ele nos leva a errar – em nossas avaliações, em nossas suposições. Uns o vêem, por isso, como um trapaceiro; outros, mais espertos, aceitam aquilo que ele tem de melhor a oferecer: a imprecisão.

Censuramos aos cronistas de hoje sua falta de rigor, seu sentimentalismo, seu apego excessivo ao Eu, seu lirismo, sua falta de propósitos. O que faz um sujeito assim em nossos jornais? – pensam os jornalistas. O que ele faz em nossa literatura? – pensam os escritores. Rubem Braga relatou, certa vez, que seus amigos escritores lhe cobravam, sempre, um grande romance – grande romance que, enfim, nunca chegou a escrever. Braga tentava lhes dizer que o romance não lhe interessava, mas só a crônica. E os amigos tomavam essa resposta como uma manifestação de falsa modéstia, ou então de preguiça. Nunca puderam, de fato, entender a grandeza de que Braga falava.

Numa conversa com Rubem Braga, republicada agora em
Entrevistas (coletânea recém-lançada pela Rocco), Clarice Lispector lhe diz: "Você, para mim, é um poeta que teve pudor de escrever versos". E diz mais: "A crônica em você é poesia em prosa". Sempre a suspeita: de que, no fundo, o cronista é um tímido, alguém que se desviou do caminho verdadeiro, alguém que não foi capaz de chegar a ser quem é. Depois de lembrar a Clarice que já publicara alguns poemas, Braga, ele também, talvez por delicadeza, ou quem sabe seduzido pelos encantos da escritora, termina por ceder: "É muito mais fácil ir na cadência da prosa, e quando acontece de ela dizer alguma coisa poética, tanto melhor".

Figura exemplar
Depois da explosão de gêneros promovida pelo modernismo do século XX, o cronista se torna – à sua revelia, a contragosto – uma figura exemplar. Transforma-se em um pioneiro que, entre escombros e imprecisões, e sempre pressionado pelo real, se põe a desbravar novas conexões entre a literatura e a vida – sem que nem a literatura, nem a vida venham a ser traídos. Figura solitária, o cronista se torna, também, uma presença emblemática, a promover simultaneamente dois caminhos: o que leva da literatura ao real, e o que, em direção contrária, conduz do real à literatura.

Há na literatura contemporânea um sentimento que, se não chega a ser de impotência, até porque grandes livros continuam a ser escritos, é, pelo menos de vazio. O modernismo esgarçou parâmetros, derrubou clichês, tirou do caminho um grande entulho de clichês, de formas gastas, de vícios de estilo. Depois de Kafka, Joyce, Proust, depois de Clarice e de Rosa, como continuar a ser um escritor? Como prosseguir em um caminho que, depois deles, se define pela fragmentação, pela dispersão, pelo vazio – exatamente como nosso conturbado mundo de hoje? O escritor já não pode mais conservar a antiga postura de Grande Senhor da escrita. Ele deixou de ser o Mestre da Palavra, para se converter, mais, em um aprendiz.

O escritor foi empurrado de volta a um ponto morto – ponto de recomeço, lugar fronteiriço que se assemelha, muito, ao ocupado pelos cronistas. Foi lançado, de volta, às perguntas básicas. Por que escrevo? O que é escrever? De que serve a literatura? Posição que, com as devidas ressalvas, podemos chamar de filosófica: pois parte das perguntas fundamentais, aquelas que, desde os gregos, definem a filosofia.

Eis a potência da crônica: sustentar-se como o lugar, por excelência, do absolutamente pessoal. Os líricos, como Vinicius, se misturam aos meditativos, como Carlinhos Oliveira, ou aos filosóficos, como Paulo Mendes Campos. Clarice praticava a crônica como um exercício de assombro; Rachel, como um instrumento para desvendar o mundo; Sabino, como um gênero de sensibilidade. Cada um fez, e faz, da crônica o que bem entende. Nenhum cronista pode ser julgado: cada cronista está absolutamente sozinho.

Terreno da liberdade, a crônica é também o gênero da mestiçagem. Haverá algo mais indicativo do que é o Brasil? País de amplas e desordenadas fronteiras, grande complexo de raças, crenças e culturas, nós também, brasileiros, vacilamos todo o tempo entre o ser e o não-ser. Somos um país que se desmente, que se contradiz e que se ultrapassa. Um país no qual é cada vez mais difícil responder à mais elementar das perguntas: – Quem sou eu?

Gênero fluido, traiçoeiro, mestiço, a crônica torna-se, assim, o mais brasileiros dos gêneros. Um gênero sem gênero, para uma identidade que, a cada pedido de identificação, fornece uma resposta diferente. Grandeza da diversidade e da diferença que são, no fim das contas, a matéria-prima da literatura.


José Castello
 
Texto originalmente publicado no suplemento literário Rascunho, em setembro de 2007.

sábado, 13 de julho de 2013


“O ideal básico de um cronista é registrar o circunstancial, normalmente relacionado ao cotidiano, fato acentuado no Modernismo, já que o gênero da crônica literária trabalha com a possibilidade de tornar mais intensa uma experiência vivida ou percebida através de uma narrativa, tentando ser fiel às circunstâncias, tornando o texto uma unidade significativa, mesmo que observada pelo olhar pessoal e fictício do escritor.”
 
      “[...] No Jornalismo contemporâneo, a crônica atua como uma sessão do veículo de comunicação que trata de um assunto específico, como política, esportes ou cultura, neles exibindo a urgência do formato (pequeno espaço, elaboração diária) enquanto recurso jornalístico.
 
      “Muitas vezes, as variações entre a crônica literária e a jornalística se misturam e como a crônica normalmente ocupa um espaço diário ou semanal nos veículos de comunicação — especialmente os jornais e as revistas —, seu texto está voltado para um formato que exige uma leitura rápida, ágil, e que neste curto espaço precisa chamar a atenção do leitor para os pequenos fatos do cotidiano.”
 
      “‘[...] fragmentária (e essa é a sua força), pois não pretende captar a totalidade dos fatos’ [...]”.
 
      “‘[...] sua sintaxe lembra alguma coisa desestruturada. Solta, mais próxima da conversa entre dois amigos do que propriamente do texto escrito. Dessa forma, há uma proximidade maior entre as normas da língua escrita e a oralidade, [...] mas recriada. O coloquialismo, portanto, deixa de ser a transcrição exata de uma frase ouvida na rua, para ser a elaboração de um diálogo entre o cronista e o leitor’ [...]. (SÁ, 2005, p. 10-11)”
 
      “Deve ser lembrado o fato que o Modernismo (séculos XX e XXI) admite a fusão de gêneros, o que dá origem a novas possibilidades de entendimento sobre a crônica, que se aproxima diversas vezes de outra tipologia textual literária, o Conto, devido à existência de elementos comuns a ambos (narrativa curta, quantidade pequena de personagens, um só núcleo de ações).
 
      “No entanto, na crônica o essencial passa pelas circunstâncias do enredo, isto é, o acontecimento do cotidiano que poderia passar, relegado ao esquecimento por ser considerado ‘irrelevante’, algo que possa passar despercebido para as pessoas de uma forma geral, mas que para a sensibilidade de cronista serve para retratar uma parte do cotidiano. [...]”

 
 
(Guia literatura UFRN 2012, Alexandre Alves, Natal (RN): Editora Sol, 2011, pp. 11-13.)

O PF da literatura em Paraty

Para você que está na Flip: faço bate-papo neste sabado, 16h30, com mediação de André Barcinski, colega de blog aqui ao lado. A conversa é na Casa da Folha, rua da Matriz s/n, Paraty. É de graça. O tema é a arte da crônica.
 
Deixo aí uma receita frugal deste gênero que é o PF, arroz, feijão e bife da literatura. Com um ovo por cima, evidentemente. Só para aquecer o debate:
 
Algumas saem fáceis, menina, como aquelas de Rubem Braga, como uma polaroid, uma pose digital, olha o passarinho, diga xis, um sabiá teimando contra o barulho da metrópole, fáceis como beijos roubados de mulheres difíceis, na dança, na pista, uma moleza, como empurrar bêbado em ladeira, como Vinícius no elogio de uma saboneteira, como descer para um café ou uma cerveja aqui na esquina da Augusta, como quem costura para fora, mesmo sabendo quanto custa a mais-valia da musa da encomenda, mesmo sabendo que na vida não tem almoço de graça, muito menos sobremesa, mesmo sabendo que a vida não é café pequeno, mesmo sabendo que no fundo da xícara, na borra mais árabe, o desenho do futuro, Etelvina, é obscuro, o jogo do bicho, Etelvina, ainda não permite o teu luxo.
 
Algumas, menina, são crônicas de britadeiras, saem na marra, à força, furando o asfalto para tirar uma florzinha de nada, a peleja do escriba com o lirismo que não chega nunca, as chagas abertas, croniquinha raquítica, só o fiapo de narrativa, sem sustança, sem tutano, coisinha sem graça, metalingüística, a crônica sobre a crônica falta de assunto.
 
Algumas vêem ao mundo para confundir a audiência, são crônicas-travestis, arte dos cronistas transgêneros… Pois é, menina, a gente não sabe se é um conto, uma rápida elegia expressionista, um poema em prosa, sabe-se lá, menina, mas mesmo não sendo nada já nasceram crônicas.
 
Algumas, não têm jeito, eram apenas notícias, que o dedógrafo teimou em decepar as aspas, minha menina, e enfeitar o naturalismo como pôde, coitado.
 
Algumas, menina, são para ninar as moças nas sestas, como as de Antônio Maria, sabia?
 
Algumas são de costumes, e até ficam como registros históricos, crônicas de épocas, já ouviu falar em João do Rio?
 
Algumas já nasceram crônicas de rua, como a grande arte de chutar tampinhas, como os sem-teto e malacos, como os bambas das sinucas das antigas, aí já estamos em João Antônio, manja?
 
Algumas são do amor louco, menina, como aquelas do velho Charles, o safado catando milho na Remington, menina, com aquela outra menina na praia, gaivotas quase a bicar-lhe os peitos, como no cinema.
 
Algumas, minha adorável criatura, minha menina sem nome, são como aquelas, lembra, quando me conheceste, lembra, quando pela primeira vez lindamente me deste.

 
Xico Sá

sábado, 1 de junho de 2013

Sobre a crônica, por José Castello

“Há uma anotação do Barão de Teive, heterônimo de Fernando Pessoa, que define, com precisão, o drama dos cronistas. Diz o barão, em seu A educação do estóico: ‘Tornara-me objetivo para mim mesmo. Mas não podia distinguir se com isso me achara, ou me perdera’.

 
“A crônica, diz-se, é o gênero da objetividade e domínio do eu. Nela, os escritores abandonam quimeras e máscaras para, enfim, descer ao mundo concreto e falar de si. A leitura de Cacos & carícias & outras crônicas, coletânea de crônicas de Hilda Hist lançada pela editora Globo, porém, expõe a ambiguidade dessa escolha.

 
“Ocorre que o eu, que nas crônicas enfim fala, ainda é, e sempre será, uma ficção. Quando dizemos ‘eu’, por mais sinceros que sejamos, manejamos ainda a mentira. Ele não passa de um esboço, precário, do que desejamos ser.

 
“Por conta dessa opção pelo eu, a crônica é vista, quase sempre, como um gênero literário menor. As primeiras suspeitas derivam de sua vizinhança com o jornalismo. De que ela trata, de eventos imaginários ou da vida real? Qual é seu objeto, a fantasia ou os fatos? Afinal, quem é o cronista: um escritor ou um jornalista?

 
“A crônica, na verdade, carrega os escritores até fronteiras que se avizinham do mundo — mas que ainda não são o mundo. Ela promete ao leitor um pouco da vida bruta — mas tudo o que oferece, ainda assim, é um punhado de palavras.

 
“Gênero limítrofe, a crônica é vista com suspeita tanto pelos escritores, que a julgam datada e ligeira, como pelos jornalistas, que a consideram fantasiosa. Escapa a ambos que ela é um lugar de entrecruzamento, um gênero sem gênero, um trangênero, o que, a propósito, combina com nossa época de transgênicos, de transnacionais e de transexuais.

 
“O que a crônica põe a nu não é o mundo, mas a própria literatura, que é sempre ‘movimento através de’. Como Macunaíma, o anti-herói de Mário de Andrade, ela se define pela ausência de caráter, o que não quer dizer mau-caráter. Posição periférica, que lhe confere o poder de deslocar perspectivas e de aniquilar certezas. Lugar, por fim, da própria literatura.

“Situado à margem, o cronista perde sem prestígio, mas ganha em liberdade. Experimenta a mesma leveza que sentimos ao chegar às fronteiras extremas, onde as regras desaparecem, as certezas se evaporam e só nos resta a brutalidade do horizonte.”

[...]

 
“Não posso deixar de lembrar da sentença do psicanalista hindu Wilfred Bion: ‘A palavra é só um relâmpago entre duas escuridões’. Gênero que imita os trânsfugas e os desertores, a crônica se torna o lugar, por excelência, desse súbito clarão. Do que quase é, mas já não é.

“A crônica não tem fórmulas. Grandes escritores como José de Alencar, Machado de Assis, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes a praticaram. Seduzidos, por certo, não por sua suposta pureza, mas pela impureza que a define.”

[...]

 
“Roçar o enigma, tangenciá-lo, eis tudo o que um escritor sempre deseja. Seja com a leveza da crônica, seja com a aspereza do romance ou a elevação do poeta, é sempre em torno de um enigma que o escritor escreve.”

 
(CASTELLO, José. Viagem à fronteira. In: ____. Sábados inquietos. São Paulo: Leya, 2013, pp. 12-3.)

 
►“[...] O bom cronista despreza os grandes temas e prefere as migalhas oferecidas pelo cotidiano. Prefere se elevar e voar a agarrar e prender.”

“[...] Penso em Rubem Braga, em José Carlos Oliveira, em Paulo Mendes Campos. Que outra coisa praticaram senão a arte de liberar o mundo das amarras da arrogância? O que é crônica — gênero do eu e da confissão, mas também do mundo e da invenção — senão um artifício que nos leva a dar rasantes sobre o mundo, não como quem agride e domina, mas como alguém que o acaricia? Em vez da ‘vertigem da sobreloja’, que só afasta da realidade e dos outros, o doce bordejar da existência.

 
“Mesmo sendo o gênero do eu, a crônica não é o lugar da exibição e do triunfo. [...] Falhar: eis tudo o que um cronista deve saber. [...] Não o gênero da glória e da empáfia, mas o gênero da delicadeza e do fracasso. Um gênero, enfim, do humano. Cronistas são homens que aprendem a olhar. Homens que praticam o que Humberto Werneck chama de ‘olhares que iluminam’.

 
“A crônica, ele nos mostra ainda, é uma ‘viagem prazerosa e vadia’ pelo rés do chão. Viagem rasteira e serena, sem preparativos e sem agendas. E, quando voa — e voar faz parte também de sua natureza —, o cronista imita seu Fernando, o pai de meu amigo baiano, para quem o próprio vôo é mais importante que o destino. O cronista vê não o que os outros não vêem, mas o que os outros, mesmo vendo, desprezam. [...]”


(CASTELLO, José. A vertigem de sobreloja. In: ____. Sábados inquietos. São Paulo: Leya, 2013, pp. 196-7.)


*Sugestão de Postagem do amigo Adauto Neto

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Reminiscência

Nasci numa pequena cidade de Minas. Até aí nada demais. Muita gente nasce em cidades pequenas, distantes e quietas. Seria feliz, de qualquer maneira, se quem lê neste instante pudesse saber a alegria que existe em se nascer num lugar assim, em que as ruas pequenas e estreitas, as altas palmeiras, a água macia da chuva que cai sempre, as muitas estrelas e a lua, as pedrinhas das calçadas, a meninada, a carteira da sala de aula, a mestra e mais uma quantidade destas lembranças simples sejam, mais tarde, influências reais na vida da gente. Na vida de quem, afinal, preferiu enfrentar a cidade grande: as águas desse mar, a luz dessas lâmpadas frias, a sala fechada, triste e sem perspectivas em que se ganha a vida, a cadeira quente e insegura das tardes de ir e vir — pura fadiga — das empresas, a luta, a dura luta de ser alguém, um peixe grande em mar estranhamente grande. A verdade é que, um dia, a pensar e refletir na grama macia da pracinha da matriz, a criança decidiu sair.

E a estrada se abriu a sua frente. Vir era uma idéia. Fixa. Caminhar era fácil.

A chegada: a rua imensa, as buzinas, as luzes, sinal verde, aquela cidade grande, grande ali, na sua frente. Cada face, cada ser que passava — pra lá e pra cá — inquietamente, tanta gente, suada, apressada, sem alegria, sem alma, a alma cerrada, enrustida, cada triste surpresa era a chegada.

Cheguei. Um táxi. A mala. As esquinas. Está bem, mas, que fazer? Sentei e pensei. Pela janela da casa alta vai a vida. Seria a vida? E disse a primeira frase na cidade grande, as primeiras palavras diante da grande luta e as palavras eram: Meu Deus, que saudade! E nem um dia me separava da pracinha da matriz. Cada dia que, a seguir, vi passar, esqueci.

Diante da máquina, neste instante, há uma distância imensa entre aquele dia na missa cantada na minha igrejinha e este dia em que, diante de mim, diante de minha mulher e da minha casa feita de cidade grande, minhas filhas brincam de ser gente grande.

E elas. Que vai ser delas? Sem palmeiras, sem um pai de ar grave; sem entender a chuva a cair em jardins humildes, nas margaridas branquinhas; sem entender de lua e de estrelas — que céu aqui, pra se ver nem se vê —, sem brincar na lama das ruas, a lama das chuvas, casca de palmeira, descer as barracas, nadar sem mamãe saber, nas águas escuras, fim de quintal, quintal, quintal? sem quintal? pedrinha de calçada, marcar a canivete sua inicial na carteira da sala. Ainda bem que nasceram meninas.

Já é diferente. Será que é? Sei lá. Entre a chegada e este instante, lembrança nenhuma. Sei que cheguei.

E sei mais: que esta página está é uma grande besteira, dura de cintura, sem graça, uma m... Já se vê que quem nasceu para caratinguense nunca chega a Rubem Braga. E também tem mais: Quem é capaz de escrever uma página literária decente — igual a essa (?) — sem usar uma vez sequer a letra O? Leiam mais uma vez. Atentamente. Se tiver um — além deste aí em cima — eu como!


Ziraldo
Texto extraído do livro "Crônicas Mineiras", Editora Ática — São Paulo, 1984, pág. 109.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Uma crônica

Uma crônica começa a se desenrolar meio preguiçosamente. Precisa apenas de um fio de assunto, que pode ser encontrado num olhar pela janela, numa consulta à estante, na lembrança de um episódio da véspera ou mesmo no mergulho vagaroso em busca da raiz de um sentimento, como quando reagimos diante de um fato e mais tarde estranhamos nossa própria reação. Começa então aquele tatear depossibilidades, um jogo de redigir frases simples mas que nos deem a sensação de que uma pedra foi removida. Começa assim a crônica, frases intangíveis removendo pedras pesadas; ou então, quem sabe, como uma pérola ao contrário, um grão de areia que se abre e revela estar cheio de madrepérola por dentro.

Claro que tudo depende da paleta verbal do autor, e até de sua disposição naquele dia– a direção para onde ele foi virado pelos ventos da vida à sua volta. A crônica deve ter esse nome porque depende do Tempo, é um jogo de búzios verbais lançados pelo Tempo. Só poderia ser escrita assim hoje, porque amanhã os ingredientes já teriam sido outros, mesmo que o projeto original fosse o mesmo. A crônica não se sente obrigada a contar uma história. A história será bem recebida, se brotar alguma história no decorrer do processo; é uma convidada bem vinda, mas, se não aparecer, a festa acontece do mesmo modo.

O cronista é como um catador de lixo da História, ele procura o que não foi aproveitado, o que passou despercebido, o que ninguém se atreveu a comentar, o que não mereceu atenção, o que foi enxergado apenas por um lado, o que passou em branco, o que entrou pra lista negra, o que nos relatos oficiais ficou meio com uma cor-de-burro-quando-foge. Por outro lado, comparado aos autores de imensos murais realistas, o cronista é um cartunista, que em dois-três rabiscos resume uma vida anônima, um sentimento eterno, uma Revolução.

A crônica é plástica, é elástica, é flexível, é multiuso, é multimídia. Como aqueles monstros plasmáticos dos filmes de pesadelo radioativo, ela tudo absorve, tudo dissolve e assimila a si mesma. Pode falar de flores e de beija-flores, de armamentos e de Armageddons, de fantasmas e de malassombros, de política e de polícia, de donos do mundo e de donas de casa. Não pode ser definida pela sua temática, nem pela sua extensão, nem pela sua estrutura interna, nem pela emoção que provoca ou pela estante onde é colocada. Talvez seja a primeira das formas literárias, antes do Big Bang que a explodiu em gêneros; talvez seja a última, para onde fluíram todas as anteriores, a que aprendeu com todas e de todas pega algo emprestado. É a aluna prodígio da primeira fila, sempre atenta e sempre ligada, de óculos e sem calcinha.
 
Braulio Tavares



(TAVARES, Bráulio. Uma crônica. In: Jornal da Paraíba. Campina Grande-PB: ano 42, n. 11.987, 06-04-2013, “Opinião”, p. 6.) ou no blog do autor Mundo Fantasmo.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Crônica para mulher do nariz grande

A mulher de nariz grande chega bem antes em qualquer ambiente.
 
É a que chega primeiro também na vida de um homem.
 
Sai, quase sempre, sem bater a porta. Prefere uma bela vingança.
 
A mulher de nariz grande fareja, degusta, vê, ouve e tateia na velocidade da luz. Como se o nariz grande se intrometesse nos outros sentidos.
 
Para o bem e para o mal. A mulher de nariz grande chega bem antes.
 
Chega primeiro para matar a sua curiosa fome de viver. Chega primeiro porque odeia ter saudade e não poder matá-la imediatamente.
 
Para o bem ou para o mal, a mulher de nariz grande chega do nada. Inclusive para aplicar um flagrante delito no canalha.
 
Ela fareja de longe a desgraça.
 
Até no altar a mulher de nariz grande deve chegar primeiro do que o noivo, desmentindo todo o folclore.
 
A mulher de nariz grande é a que, entre todas as suas semelhantes, tem menos inveja do pênis.

 
A porção mulher que até então se resguardara, amigo, aflora, freudianamente, diante da presença dela.
 
A mulher de nariz grande me lembra o melhor conto que já li na vida: “O Nariz”, de Nikolai Gogol, evidentemente.
 
A mulher de nariz grande puxa oxigênio e aroma dos jardins para a cama até em uma manhã de segunda.
 
Na horizontal, o nariz grande vira uma ponte para a margem esquerda do nirvana.
 
Em um colchão d´água de motel barato, é ponte sobre o Danúbio.
 
Ao contrário de Pinóquio, quando mente, digo, quando ilude, a mulher do nariz grande cresce as orelhas, Deus castiga.
 
Graças a tal temor, a mulher de nariz grande é a que menos utiliza o dom de iludir os tontos como este que vos digita.
 
 
A mulher de nariz grande emite as mais lindas e barulhentas onomatopeias quando goza ou até mesmo quando se aproxima do solene momento. Ela sente antes o incêndio das horas.
 
Mesmo em uma distância transatlântica, amigo, saiba: é a mulher do nariz grande que estará mais perto do que qualquer outra.

 
 
Xico Sá

domingo, 3 de fevereiro de 2013

O troco na padaria e a autovalorização do homem

Pelo tom monótono da voz como de quem sobe uma escada a passos confusos, um de esforço, outro de preguiça, ela parecia ter fumado alguma coisa cujo efeito é amolecer as palavras como bolacha no leite, como casca de ferida na água. Talvez fossem só comprimidos para dormir expandindo seus efeitos no final da manhã no balcão da padaria. As palavras eram camelos desorientados derrubando, a grandes pisadas, mesas e cadeiras ou açucareiros em cujo fundo se percebia, com um mínimo de atenção, uma camada de ácido. Assim como uma migalha de pão não mata a fome, antes a intensifica, um resto de comprimido não faz dormir, antes deflagra um sono impossível. Um cachorro pequeno, parecendo morto dentro da bolsa na cadeira ao lado dessa mulher de voz malemolente, doce e ácida, devia ter comido a maior parte.
 
Assim, parecendo cansada, a mulher media palavras, ou melhor, as arrastava como pés de morta, sacolas de um mendigo, a ponto de quem ouvia poder anotar cada frase proferida no tempo de crescer uma planta. Junto dela havia além do cão talvez morto, um homem que a ouvia. Não saberemos se irmão, marido ou se mero servo. Servo, essa palavra é boa para esta crônica e por isso, vamos mantê-la. Suspeitaremos que fosse assim um servo, mas também um gigolô, pois que ainda existem, e tornam as histórias sempre muito mais interessantes.
 
— O dinheiro é meu — ela falou.
 
É preciso saber que não disse simplesmente, assim como quando aqui de fora lemos a frase “o dinheiro é meu” com a objetividade das sílabas ditas em sequência direta. Pronunciou a informação de um modo um pouco complicado. Algo como “uooo dinheeeeeiro ééé meeeeuuoo”, ondulando as palavras até fazer de cada uma, uma montanha intransponível. E dando a esta crônica limites sonoros que fazem sua autora preocupar-se com o que pode realmente transmitir aos leitores.
 
Fazendo transitar as frases no alto mar da ressaca, ela continuou no tom que doravante exige a imaginação do leitor e sua inteira paciência para encompridar a frase, alcançando assim o tom do tempo espichado:
 
— Eu não vou perder dinheiro. Não me interessa perder nem um centavo do que tenho. Nada, entendeu? Não me interessa nem um pouco ganhar menos do que tenho. — Era o que ela dizia repetindo-se como que para certificar aos outros e a si mesma de que estava certa.
 
O homem que não saberemos se era marido, irmão ou um mero servo, insinuou dizer alguma coisa.
 
— Bebê, quem está falando sou eu — ela falou, abrindo ainda mais o pano negro da lentidão, efeito do sono inconquistado com que cobria até agora o seu parceiro no tardio café da manhã.
 
— Preste muita atenção no que eu digo — continuou enquanto ele permanecia calado. — Você poderia esperar eu terminar de dizer o que tenho a dizer? Eu tenho várias coisas a dizer. Poderia, ou não poderia dizer estas coisas todas? São urgentes. São coisas seríssimas. Você está precisando ouvir? — Falava entre pausas como água que escorre — impotável, diga-se de passagem — de uma torneira impossível de estancar.
 
Ele ouvia ainda mais calado.
 
— A conta é minha. E sempre foi minha. Vai continuar sendo minha e de mais ninguém. Somente minha. Minha, entendeu? O dinheiro é meu, entendeu? Antes era meu e agora continua sendo meu. Quer dizer, era da minha família. Mas isso é a mesma coisa que meu. Da família onde eu nasci. E vai continuar sendo. E não vamos mais falar sobre isso porque eu não quero mais falar nesse assunto. E quando eu não gosto de um assunto, não se fala sobre ele, entendeu?
 
Ele permanecia calado. Ela falava entre ondulações e pausas. Foi assim que chamou o garçom, que se aproximou esperto e ágil contradizendo o tom vagaroso da cena.
 
— Quanto custa o pão com manteiga? — ela perguntou.
 
O garçom respondeu objetivamente.
 
— E sem manteiga? — continuou.
 
— Vinte centavos a menos.
 
— E com requeijão?
 
— Noventa centavos a mais.
 
— E o café com leite?
 
— O mesmo que o pão — ele disse.
 
— E o café, só o café, sem o leite?
 
O garçom respondeu tudo com a objetividade desejável a um profissional da área enquanto ela se decidia.
 
— Me traz um copo de água e meio pão. O pão sem manteiga.
 
Parece mentira, mas foi assim mesmo. O garçom trouxe rapidamente o pedido. A mulher olhou e não comeu. O homem pagou a conta sem tomar sequer um café. Ouvimos que dissesse: “Vou aprender a valorizar o que faço”. Não pudemos ver com nitidez seu rosto. Especulamos de onde ouvíamos a conversa sobre os motivos de sua frase que, como uma moeda de troco, caiu da mesa e rolou até a sarjeta perdendo-se entre as pedras.
 
Mais tarde, a mesma mulher lenta saía do xópim usando uma bengala, embora fosse bem jovem. Lenta como só ela, o rosto oculto entre vasta cabeleira, parecia bonita e estava em silêncio. O homem, irmão, marido ou empregado, carregava a bolsa com o cachorro e várias sacolas de lojas de roupas, sapatos e perfumes. Em torno, uma sensação de fim da história.
 
O cronista é um observador da vida. Sua tarefa histórica e social é capturar o nonsense diário trazendo-o à visão das gentes. Por isso, ele deve preferir a banalidade crônica do cotidiano aos feitos espetaculares que cabem hoje em dia à notícia jornalística. Só assim ele e seu leitor conseguirão descobrir que o troco da padaria equivale à autovalorização do homem.
 
 
Marcia Tiburi
 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A arte da vagabundagem crônica

Algumas saem fáceis, como aparentam aquelas de Rubem Braga, como uma polaroid, uma pose digital, olha o passarinho, olha a borboleta amerela, diga xis, um sabiá teimando contra o barulho da metrópole, fáceis como beijos roubados de mulheres difíceis…
 
Outras nascem na dança, na pista, uma moleza, como empurrar bêbado em ladeira, como Vinícius no elogio de uma saboneteira, como descer para um café ou uma cerveja lá na esquina da Augusta.
 
A crônica é uma costura para fora, mesmo sabendo quanto custa a mais-valia da musa da encomenda, mesmo sabendo que na vida não tem almoço de graça, muito menos sobremesa, mesmo sabendo que a vida não é café pequeno, mesmo sabendo que no fundo da xícara, na borra mais árabe, o desenho do futuro, Etelvina, é obscuro, o jogo do bicho, Etelvina, ainda não permite o teu luxo, a vida, minha menina, é cronicamente inviável.
 
Algumas, menina, são crônicas de britadeiras, saem na marra, à força, furando o asfalto para tirar uma florzinha de nada, a peleja do escriba com o lirismo que não chega nunca, as chagas abertas, croniquinha raquítica, só o fiapo de narrativa, sem sustança, sem tutano, coisinha sem graça, metalingüística, a crônica sobre a crônica falta de assunto.
 
Algumas vêem ao mundo para confundir a audiência, são crônicas-travestis, arte dos cronistas transgêneros… Pois é, menina, a gente não sabe se é um conto, uma rápida elegia expressionista, um poema em prosa, sabe-se lá, menina, mas mesmo não sendo nada já nasceram crônicas.
 
Algumas, não têm jeito, eram apenas notícias, que o dedógrafo teimou em decepar as aspas, minha menina, e enfeitar o naturalismo como pôde, coitado.
 
Algumas, menina, são para ninar as moças nas sestas, como as de Antônio Maria, tu sabias?
 
Algumas são de costumes, e até ficam como registros históricos, crônicas de épocas, já ouviste falar, por acaso, em João do Rio?
 
Algumas já nasceram crônicas de rua, como a grande arte de chutar tampinhas, como os sem-teto e malacos, como os bambas das sinucas das antigas, aí já estamos em João Antônio, manja?
 
Algumas são do amor louco, menina, como aquelas do velho Charles, o safado catando milho na Remington, menina, com aquela outra menina na praia, gaivotas quase a biscar os peitos, como no cinema.
 
Algumas, minha adorável criatura, minha menina sem nome, são como aquelas que simplesmente distraem o feirante antes dele embrulhar o peixe, a banana e, quem sabe, também as flores.
 
 
Xico Sá

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Fragmentos sobre a crônica

A crônica consiste num gênero textual em que se faz uma reflexão pessoal sobre acontecimentos pitorescos do cotidiano. Ela não se limita à mera reprodução de fatos, mas vai além, mostrando ângulos não percebidos. É fragmentária, pois não tem a pretensão de abordar o fato como um todo, mas apenas alguns detalhes significativos. Esse gênero, na maioria das vezes, é um texto curto e rápido, escrito quase sempre numa linguagem comum ou familiar.


“Conforme Coutinho e Souza, o fato, que é em geral um fim para o jornalista, para o cronista é um pretexto para divagações, comentários e reflexões. É um gênero textual altamente pessoal, uma reação individual e íntima diante da vida, das coisas ou dos seres (2001, p. 562-563). Num estilo leve, o cronista pode tratar de problemas sociais, de fraquezas humanas, de fatos ocorridos na sociedade, de uma notícia marcante, de um filme, de uma viagem, entre outros temas.

 
“Geralmente, a crônica aborda fatos do dia a dia, ao primeiro olhar, sem importância. Para Martins e Saito (2006), o cronista faz com que esses fatos banais sejam significativos, na medida em que mostra ‘a grandeza’ escondida neles.

 
“Uma das marcas desse gênero é abarcar o comentário do fato jornalístico, a ficção, a ironia, o humor diante da sociedade e a defesa de idéias, tendo sempre um olhar crítico e inesperado. A crônica tem uma estrutura livre, e pode valer-se do diálogo, do monólogo, da entrevista, da resenha e de personagens reais ou fictícios.

 
“Esse gênero pode apresentar tipologia textual de base narrativa, dissertativa, entre outras, dependendo da intenção do autor. A crônica com tipologia de base narrativa possui poucas personagens, e as referências espaciais e temporais são limitadas: as ações ocorrem num único espaço, e o tempo normalmente corresponde a alguns minutos ou algumas horas. Segundo costa, quando a crônica é ‘predominantemente narrativa, possui trama quase sempre pouco definida, sem conflitos densos, personagens de pouca densidade psicológica, o que a diferencia do conto’ (2009, p. 80).

 
“A crônica com tipologia textual de base narrativa admite o narrador em primeira pessoa, participando dos acontecimentos, ou em terceira pessoa do discurso, observando os fatos. Conforme Costa, a crônica busca aproximar o enunciador do leitor pelo uso freqüente do discurso indireto livre e de perguntas retóricas (2009, p. 81). O discurso indireto livre ocorre quando há fusão entre personagem e narrador, pois, entremeando a narrativa, aparecem diálogos indiretos da personagem, que complementam a fala do narrador. Por sua vez, as perguntas retóricas estão presentes quando o narrador propõe ao leitor questionamentos sem esperar uma resposta, com a intenção de levá-lo a pensar sobre o assunto.”

 
(...)

“Há dois tipos de crônica, a literária e a não literária; ambas são construídas a partir de dados da realidade. A crônica literária pertence à ordem do narrar e a não literária, à ordem do relatar.

 
“Na crônica literária, o cronista transforma os elementos objetivos em estéticos a partir de sua liberdade e capacidade imaginativa. Reinventa o real pelo uso particular das palavras, através do emprego da linguagem conotativa e subjetiva, deixando transparecer suas emoções e desvelando poeticamente o instante. A linguagem conotativa refere-se ao significado que certas palavras e expressões assumem, modificando seu sentido literal, e a linguagem subjetiva mostra a visão pessoal do indivíduo e sua reação emotiva frente a algo. De acordo com Soares, enquanto literatura, a crônica atravessa o tempo por ser um registro poético e, muitas vezes, irônico, que capta o imaginário coletivo em suas manifestações cotidianas, perpetuando-o ( 1997, p. 64).

 
“Já na crônica não literária, o autor vale-se da realidade objetiva, com seus dados passíveis de comprovação. Para que sua intenção seja comunicada, usa sobretudo a linguagem denotativa e objetiva. Conforme Machado, a crônica não é propriamente uma notícia, mas um artigo sobre a notícia (1994, p. 240). Entre as crônicas não literárias, as mais comuns são a crônica jornalística, policial, esportiva, política, social e de moda.

 
(...)

 
“Moisés coloca que, na Idade Média, após o século XII, a crônica voltou-se para a perspectiva histórica, o que determinou umas distinção: havia obras que narravam os acontecimentos detalhadamente, com algumas explicações; outras os apresentavam numa perspectiva individual da história, como ocorre nas obras de Fernão Lopes (séc. XIV). O autor diz que existiam, além disso, os cronições, também chamados de crônicas breves, que constituíam notações simples e impessoais sobre o cotidiano (2004, p. 110).

 
“Ainda conforme Moisés, no século XVI, o termo crônica foi substituído por história. A partir do século XIX, o vocábulo foi utilizado para designar textos que tinham pouca relação com o primeiro tipo de crônica e que assumiram estrita personalidade literária. Essa forma de crônica teria sido produzida inicialmente pelo francês Julien-Louis Geoffroy, por volta de 1800, e publicade no Journal des Débats (2004, p. 110).

“No Brasil a crônica surgiu há uns 150 anos, com o Romantismo e o desenvolvimento da imprensa, e é considerada um dos mais antigos gêneros jornalísticos. A princípio foi designada pelo nome de folhetim.

(...)

Sintetizando

A crônica:

Quadrado pequeno pretoconsiste numa produção breve sobre um fato do cotidiano;

Quadrado pequeno pretoenvolve dados da realidade;

Quadrado pequeno pretopretende refletir e/ou divertir;

Quadrado pequeno pretocapta os aspectos singulares do fato e mostra ângulos não percebidos;

Quadrado pequeno pretoé um texto leve, escrito de forma pessoal;

Quadrado pequeno pretopossui estrutura livre;

Quadrado pequeno pretoemprega a linguagem comum ou familiar;

Quadrado pequeno pretoutiliza narrador em primeira ou terceira pessoa do discurso;

Quadrado pequeno pretopode ser literária ou não literária.”

 

VANILDA SALTON KÖCHE (et al.)

 
(KÖCHE, Vanilda Salton, MARINELLO, Adiane Fogali, BOFF, Odete Maria Benetti. Crônica. In: ___. Estudo e produção de textos: gêneros textuais do relatar, narrar e descrever. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012, p. 69-72.)


*Sugestão e indicação de postagem do amigo Adauto Neto

domingo, 22 de julho de 2012

Receita de domingo

Ter na véspera o cuidado de escancarar a janela. Despertar com a primeira luz cantando e ver dentro da moldura da janela a mocidade do universo, límpido incêndio a debruar de vermelho quase frio as nuvens espessas. A brisa alta, que se levanta, agitar docemente as grinaldas das janelas fronteiras. Uma gaivota madrugadora cruzar o retângulo. Um galo desenhar na hora a parábola de seu canto. Então, dormir de novo, devagar, como se dessa vez fosse para retornar à terra só ao som da trombeta do arcanjo.

Café e jornais devem estar à nossa espera no momento preciso no qual violentamos a ausência do sono e voltamos à tona. Esse milagre doméstico tem de ser. Da área subir uma dissonância festiva de instrumentos de percussão — caçarolas, panelas, frigideiras, cristais anunciando que a química e a ternura do almoço mais farto e saboroso não foram esquecidas. Jorre a água do tanque e, perto deste, a galinha que vai entrar na faca saia de seu mutismo e cacareje como em domingos de antigamente. Também o canário belga do vizinho descobrir deslumbrado que faz domingo.

Enquanto tomamos café, lembrar que é dia de um grande jogo de futebol. Vestir um short, zanzar pela casa, lutar no chão com o caçula, receber dele um soco que nos deixe doloridos e orgulhosos. A mulher precisa dizer, fingindo-se muito zangada, que estamos a fazer uma bagunça terrível e somos mais crianças do que as crianças.

Só depois de chatear suficientemente a todos, sair em bando familiar em direção à praia, naturalmente com a barraca mais desbotada e desmilingüida de toda a redondeza.

Se a Aeronáutica não se dispuser esta manhã a divertir a infância com os seus mergulhos acrobáticos, torna-se indispensável a passagem de sócios da Hípica, em corcéis ainda mais kar do que os próprios cavaleiros.

Comprar para a meninada tudo que o médico e o regime doméstico desaconselham: sorvetes mil, uvas cristalizadas, pirulitos, algodão doce, refrigerantes, balões em forma de pingüim, macaquinhos de pano, papaventos. Fingir-se de distraído no momento em que o terrível caçula, armado, aproximar-se da barraca onde dorme o imenso alemão para desferir nas costas gordas do tedesco uma vigorosa paulada. A pedagogia recomenda não contrariar demais as crianças.

No instante em que a meninada já comece a "encher", a mulher deve resolver ir cuidar do almoço e deixar-nos sós. Notar, portanto, que as moças estão em flor, e o nosso envelhecimento não é uma regra geral. Depois, fechar os olhos, torrar no sol até que a pele adquira uma vida própria, esperar que os insetos da areia nos despertem do meio-sono.

A caminho de casa, é de bom alvitre encontrar, também de calção, um amigo motorizado, que a gente não via há muito tempo. Com ele ir às ostras na Barra da Tijuca, beber chope ou vinho branco.

O banho, o espaçado almoço, o sol transpassando o dia. Desistir à última hora de ver o futebol, pois o nosso time não está em jogo. Ir à casa de um amigo, recusar o uísque que este nos oferece, dizer bobagens, brigar com os filhos dele em várias partidas de pingue-pongue.

Novamente em casa, conversar com a família. Contar uma história meio macabra aos meninos. Enquanto estes são postos em sossego, abrir um livro. Sentir que a noite desceu e as luzes distantes melancolizam. Se a solidão assaltar-nos, subjugá-la; se o sentimento de insegurança chegar, usar o telefone; se for a saudade, abrigá-la com reservas; se for a poesia, possuí-la; se for o corvo arranhando o caixilho da janela, gritar-lhe alto e bom som: never more.

Noite pesada. À luz da lâmpada, viajamos. O livro precisa dizer-nos que o mundo está errado, que o mundo devia, mas não é composto de domingos. Então, como uma espada, surgir da nossa felicidade burguesa e particular uma dor viril e irritada, de lado a lado. Para que os dias da semana entrante não nos repartam em uma existência de egoísmos.


Paulo Mendes Campos

Somos todos estrangeiros

Somos todos estrangeiros




Ivan Lessa





Estrangeiro é o bairro em que moramos, estrangeira é a mulher que encoxamos no elevador, estrangeiros são nossos pais, nossos filhos. Nunca me senti em casa no Brasil, ninguém está em casa no Brasil: todo mundo foi até a esquina, todo mundo foi tomar um cafezinho. Achava que, de uma maneira ou de outra, eu estava embromando ou sendo embromado por alguém. Que viver não era nada daquilo, que eu não tinha nada com o peixe, que os verdadeiros brasileiros estavam misteriosamente ocupados com seus sofrimentos, ou então atarefados criando um Brasil melhor: gente andando rapidamente nas ruas da cidade, ou cavando uma terra dura e ingrata. Os brasileiros eram abstratos, distantes, mais calados do que comumente se supõe. Conheço algumas vozes brasileiras: gostaria de saber escrever na tonalidade do Jorge Veiga, ou do Moreira da Silva, misturada a uma retórica aborrecida e às avessas semelhante à de Ruy Barbosa — como o Hino à Bandeira acompanhado de caixinha de fósforos. Os sambinhas, claro, eram brasileiros, o pessoal que sentava ao meu lado no Maracanã era brasileiro, as piadas de papagaio eram brasileiras. Mas tudo era de mentirinha, beirando sempre o pitoresco ou se precipitando na tragédia policial ou no editorial dos jornais. A vida a sério, os seis quarteirões em que me locomovia, as seis pessoas com quem convivia não eram, digamos assim, bem brasileiros — assim como eu, tinham máquina fotográfica a tiracolo e camisas com palmeiras.

Em tudo que eu engolia ficava uma ponta de tradução atravessada em minha garganta: os filmes com legendas em português, as histórias em quadrinhos, os livros, as notícias; os foxes. Éramos uma versão pobre do que a vida deveria ser — e a vida vinha sempre em inglês, em francês, em alemão. Mesmo quando dizia “eu te amo”, ou “não me chateia”, eu me sentia vagamente ridículo, apropriador — feito um homem de série da televisão mal dublado: minha boca fechada e as palavras ainda saindo, um ventríloquo com descontrole psicomotor.

Reconheci, pelo paladar, pelos olhos, certos molhos, certas bossas tipicamente brasileiras (o problema é que eram típicos): feijoada, dendê, folha seca de Didi, Noel Rosa, escola de samba. Mas a essência, a parte que tratava de mim (nos meus seis quarteirões, na cidade no sul do país) e de minha relação com os severinos todos, essa parte era sempre tratada em outra língua; eu pertencia aos estrangeiros, foram eles que me disseram como vim a fazer parte ou como nunca fiz parte. Eu era, como todo brasileiro, um improvisador, um adaptador, um tradutor, conseqüentemente um traidor — porque eu olhava para a cara de meu semelhante e não sabia como poderíamos nos entender, o que ele tinha a me dizer, o que eu poderia lhe dizer, como juntos conseguiríamos nos salvar. No entanto, o tempo todo, eu era, eu sou, apenas mais um João, só que em russo.

Não consegui, como tanta gente de minha geração ou mais moça do que eu, me interessar pelo folclore caboclo. A própria palavra folclore já leva embutido um desaforo urbano. No entanto, achava que o setor, devidamente estudado por profissionais competentes, me seria útil, me forneceria, por exemplo, dados para escrever com justeza para um público moço que vive de cinema, disco e que sabe, curiosamente, que há uma tremenda safadeza, uma violência no ar. Não lia, portanto, O Negrinho do Pastoreio — o que já preparava o terreno até para eu deixar de ler Machado de Assis ou Dalton Trevisan. Comprava pocketbooks, que eram mais baratos, mais engraçados, e, de certa forma, sobre mim, a meu respeito. Preocupado comigo mesmo, com esse “meu respeito”, descobri-me sozinho no meio da avenida repetindo eu... eu... eu... como um pronome enguiçado que não consegue engatar a segunda e a terceira do singular. Perdi os joões, os josés, os severinos, vim para o original, o estrangeiro, dando início a uma certa paz, tranqüilidade, a noção de ordem: as legendas acabaram, sou finalmente, completamente, um estrangeiro. Posso agora conjugar-me no plural, dizer nós. Somos todos estrangeiros, sois todos estrangeiros, são todos estrangeiros. Não há nada a fazer a não ser descobrir esse estrangeiro que há na gente. Daí então a gente começa a falar brasileiro, coça o saco, conta como é que é. Daí então o papo, aquele papo, pode começar. Só que agora pra valer.

Londres, 7 de setembro, 1970


Ivan Lessa

A primeira morte

A pequena tragédia de um homem comum diante do exame de colesterol.

A notícia veio em um exame de rotina, aberto na página do laboratório na internet enquanto tomava um chocolate quente. Na verdade, leite com um chocolate em pó cheio de porcarias que ele toma desde a infância e, por isso, aos 43 anos, é uma fonte de alegria permanente na prateleira da cozinha. Quando bateu na minha porta, os olhos escancarados, avisando que tinha uma má notícia, eu pensei logo em câncer. No nosso tempo, é o que a gente sempre pensa, mesmo que não diga. “Meu colesterol está alto”, ele disse. “Muito acima do péssimo.” Amoleci inteira e até esbocei um sorriso. “Ah, mas isso não é tão grave.” Mas era. Eu não fui capaz de perceber logo, mas era a primeira morte de meu melhor ami go.

Não era uma doença incurável, não era um drama humanitário, não era nada que alterasse a ordem do mundo. Era só a pequena tragédia dele. Comezinha e cotidiana. A tragédia de um homem comum, com uma vida comum, que sentia a primeira fisgada do fim.

No percurso de uma vida, quando temos a sorte de ter uma existência longa, passamos por várias pequenas mortes e renascimentos. É importante que partes de nós morram para que outras possam nascer – ou apenas para que esses pedaços mofados de nossas crenças sobre nós ou da crença de outros sobre nós saiam do caminho. É triste quando alguém é uma coisa só a vida toda – perdendo a chance de acolher todos os outros de si. Quando alguém anda pela vida apertado em uma roupa que nunca lhe serviu direito, mas que foi vestida nele ou nela por seus pais ainda na infância, como se fosse o único modelo que lhe coubesse.

É importante que, em algum momento, de preferência mais cedo do que tarde, a gente descubra que essa roupa não serve – ou que apenas algumas partes servem e outras precisam ser jogadas fora, para que novas possam ser inventadas. É essencial que nos libertemos dos dogmas impingidos sobre nós para podermos criar uma vida que faça mais sentido – e para nos sentirmos livres para recriá-la o tempo todo. O olhar do outro sobre nós, a começar pelo dos nossos pais, às vezes é redenção, em outras é prisão, em geral é ambos.

Por isso me parece que uma vida é mais rica quando morremos e renascemos muitas vezes. Mas esta é a existência psíquica, é o que se passa em nossas porções invisíveis, naquela parte da nossa geografia que não se pode tocar com as mãos. Poucas coisas ou nenhuma são mais assustadoras do que ousar se libertar de um jeito de ser cujo funcionamento conhecemos. Porque ainda que esse jeito nos sequestre o desejo, nos parece mais seguro do que enfrentar o vazio de descobrir formas de viver mais próximas de nossos anseios. Mas, se tivermos essa coragem que anda de mãos agarradas com o medo, nós nos responsabilizamos pelas nossas escolhas, seguimos e criamos e morremos e renascemos. Muitas vezes.Em algum momento, porém, o corpo anuncia uma morte da qual não é possível renascer. A rigor, começamos a morrer desde o nascimento. De fato, nosso declínio físico começa aos 20 e poucos anos, mas esses sinais podem ser ignorados. E são. Por volta dos 40 – um pouco depois, para quem tem mais sorte, um pouco antes, para quem tem mais azar –, recebemos a notícia da primeira morte que não podemos ignorar. A primeira morte do corpo.

Foi o que aconteceu com meu melhor amigo. Para não morrer nos próximos anos de enfarte ou AVC por causa das artérias entupidas de gordura, ele matou com um só golpe um mundo inteiro dentro de si. Não é uma mera mudança de hábitos, como médicos e nutricionistas tentam nos convencer em consultas, reportagens e sites da internet. É um mundo inteiro que se extingue como se o Sol explodisse de repente, muito antes dos bilhões de anos calculados pelos astrônomos. Para quem vive nesse planeta, é uma hecatombe. Para a imensidão do universo, é um nada, estrelas morrem o tempo todo sem que a ordem da vida dos outros se altere.

Para o planeta humano que é meu melhor amigo, foi uma hecatombe. Acabaram-se as feijoadas, o churrasco, a pizza, o hambúrguer, a batata frita, os pastéis, os bolos, os bolinhos, as tortas, os chocolates. Mas não só. Encerrou-se a possibilidade de renovar a qualquer momento a memória de uma vida de afetos: a receita de bacalhau da mãe que morreu, a torta de morangos que só a sogra sabe fazer, o feijão gordo que a mulher prepara toda quinta-feira e havia se tornado um acontecimento, a noite com o amigo de infância recheada de cumplicidade, chope e frituras.

Acabou-se a possibilidade de degustar territórios ainda não desbravados. As experiências gastronômicas com um amigo chefe de cozinha. O acesso às dores de alma e as alegrias de outros povos e terras através da comida, dos ingredientes e dos temperos, que o instigavam a jamais perder nenhuma chance de viajar. Suas próprias invenções com as panelas que reuniam os mais próximos em alegres descobertas na mesa da cozinha. Agora, ele terá de recusar pratos em almoços e jantares – e será um problema na cozinha alheia.

Um mundo dentro do mundo morreu em um segundo. E a notícia dessa morte o lembra o tempo todo de que é só a primeira das muitas que virão. “Tenho medo de morrer de repente”, ele diz. Porque sente que uma parte dele teve morte súbita tendo ele mesmo por testemunha. “Eu não fumo, não uso drogas, só bebo em ocasiões especiais”, ele diz, traído. Eu quase digo: “A vida não dá garantias”, mas me contenho a tempo.

Sei que dentro dele toca o réquiem de Verdi, dramático e grandiloquente, mas só ele escuta. Porque sua tragédia é prosaica, acontece com muitos, não é notícia nem na família. Ele é só mais um homem diante do parapeito da ponte – sem vontade de atirar-se dali, mas apavorado porque um dia vai estar lá embaixo.

Pesquisamos juntos na internet, tentamos inventar receitas, descobrir novos ingredientes, criar um mundo novo dentro do universo restrito ao qual ele foi confinado. Cheiramos desconfiados uma linguiça de soja, passamos retos pela manteiga, enchemos o carrinho de coisas verdes. Depois vamos ao cinema para esquecer seu pequeno drama diante da grandeza do drama maior de um outro, mas quando estaqueamos diante da pipoca, o luto desce sobre ele, inexorável. Sabemos que é preciso aceitar essa morte, assim como todas que virão, com o excesso de perdas que ela contém. Em geral não se morre de uma vez só, mas aos poucos. E é o corpo que nos ensina a brutalidade dessa verdade.

O colesterol não encolheu apenas a largura das artérias de meu melhor amigo, mas também a largura da sua vida. Ele sabe que não pode escapar dos limites impostos pelo corpo. Pode, como todos nós, no máximo adiá-los. No exame do laboratório o tal do LDL avisa que a juventude, aquele tempo no qual era possível fingir que não havia limites, acabou. Mas a gordura que entulha as artérias de meu melhor amigo não lhe obstrui o espírito. Porque morreu e nasceu muitas vezes ao longo de seus 43 anos, há nele uma vida dentro da vida que se amplia também nesse choque com os limites. Enquanto o corpo falha, sua mente recolhe suas lágrimas, sua surpresa e sua dor e os transforma em uma experiência a mais.

Sempre foi assim, afinal. É no confronto com a miséria da condição humana que produzimos o melhor do humano. Condenados eternamente ao fracasso de nosso embate com a morte, inventamos essa vida dentro da vida. Que, se tivermos a ousadia de morrer e nascer várias vezes no espaço de uma existência, será uma vida maior que a vida.

Não tenho dúvidas de que meu melhor amigo seguirá suspirando de saudades de uma picanha gorda ou de um feijão com costelinha de porco. Mas, nesse último final de semana, ele já havia colado um cartaz patético na cozinha, com imagens suas de a.C. e d.C. – “C” não de Cristo, mas de colesterol. Estava entrouxado de roupas porque acreditava que os 100 gramas que tinha perdido desde que abriu o exame tornaram-no “mais friorento”. E tentava inventar uma maionese caseira sem ovos nem óleo.

Soube então que estava salvo. Não do colesterol, mas de algo muito pior: uma vida pequena.


Eliane Brum

Jornalista, escritora e documentarista

domingo, 1 de abril de 2012

Reminiscência

Nasci numa pequena cidade de Minas. Até aí, nada demais. Muita gente nasce em cidades pequenas, distantes e quietas. Seria feliz, de qualquer maneira, se quem lê neste instante pudesse saber a alegria que existe em se nascer num lugar assim, em que as ruas pequenas e estreitas, as altas palmeiras, a água macia da chuva que cai sempre, as muitas estrelas e a lua, as pedrinhas das calçadas, a meninada, a carteira da sala de aula, a mestra e mais uma quantidade destas lembranças simples sejam, mais tarde, influências reais na vida da gente.

Na vida de quem, afinal, preferiu enfrentar a cidade grande: as águas desse mar, a luz dessas lâmpadas frias, a sala fechada, triste e sem perspectivas em que se ganha a vida, a cadeira quente e insegura das tardes de ir e vir — pura fadiga — das empresas, a luta, a dura luta de ser alguém, um peixe grande em mar estranhamente grande.

A verdade é que, um dia, a pensar e refletir na grama macia da pracinha da matriz, a criança decidiu sair. E a estrada se abriu a sua frente. Vir era uma idéia. Fixa. Caminhar era fácil. A chegada: a rua imensa, as buzinas, as luzes, sinal verde, aquela cidade grande, grande ali, na sua frente. Cada face, cada ser que passava — para lá e para cá — inquietamente, tanta gente, suada, apressada, sem alegria, sem alma, a alma cerrada, enrustida, cada triste surpresa era a chegada. Cheguei. Um táxi. A mala. As esquinas. Está bem, mas, que fazer? Sentei e pensei. Pela janela da casa alta vai a vida. Seria a vida? E disse a primeira frase na cidade grande, as primeiras palavras diante da grande luta e as palavras eram: Meu Deus, que saudade! E nem um dia me separava da pracinha da matriz.

Cada dia que, a seguir, vi passar, esqueci. Diante da máquina, neste instante, há uma distância imensa entre aquele dia na missa cantada na minha igrejinha e este dia em que, diante de mim, diante de minha mulher e da minha casa feita de cidade grande, minhas filhas brincam de ser gente grande. E elas. Que vai ser delas? Sem palmeiras, sem um pai de ar grave; sem entender a chuva a cair em jardins humildes, nas margaridas branquinhas; sem entender de lua e de estrelas — que céu aqui, para se ver nem se vê —, sem brincar na lama das ruas, a lama das chuvas, casca de palmeira, descer as barracas, nadar sem mamãe saber, nas águas escuras, fim de quintal, quintal, quintal? Sem quintal? Pedrinha de calçada, marcar a canivete sua inicial na carteira da sala. Ainda bem que nasceram meninas. Já é diferente. Será que é? Sei lá. Entre a chegada e este instante, lembrança nenhuma. Sei que cheguei. E sei mais: que esta página está é uma grande besteira, dura de cintura, sem graça, uma m... Já se vê que quem nasceu para caratinguense nunca chega a Rubem Braga. E também tem mais: Quem é capaz de escrever uma página literária decente — igual a essa (?) — sem usar uma vez sequer a letra O? Leiam mais uma vez. Atentamente. Se tiver um — além deste aí em cima — eu como!


Ziraldo Alves Pinto