segunda-feira, 27 de abril de 2020
sexta-feira, 8 de março de 2019
Aspirador
Antes
que eu lhe pergunte o que deseja, o gordinho começa a exibir-me uma
aparelhagem complicada, ainda na porta da rua. São tubos que se ajustam,
fio para ligar na tomada, escovinhas de sucção e outros apetrechos.
- Entre - ordenei.
Ora, acontece que jamais prestei sentido na existência dos aspiradores de pó.
Por
isso é que fui logo cometendo a imprudência de convidar o gordinho a
exibir-se de uma vez no interior da sala. Na porta da rua venta e faz
muito pó, disse-lhe ainda, tentando um trocadilho infeliz. Entramos os
dois, para a tradicional peleja entre comprador e vendedor.
Vi
o gordinho desdobrar-se, suando, estica o fio, não dá até a tomada,
arrasta a cadeira um pouco para lá, não é isso mesmo? Ah, sim, com
licença, quer limpar esse tapete?
É
um tapete que arrasto comigo há anos, por todos os lugares em que venho
morando. Já abafou meus passos em dias de inquietação, já recebeu
alguns pulos meus de alegria, e manchas de café, de tempo, de poeira dos
sapatos. Pois olhe só - em dois tempos o gordinho pôs a engenhoca a
funcionar, esfrega daqui e dali, praticamente mudou a cor do meu tapete.
-
Agora é que o senhor vai ver - anunciou, feliz, revelando-me a
existência, dentro do aparelho, de uma sacola onde o pó se acumulava.
Exibiu-me seu conteúdo com um sorriso de puro êxtase, o tarado.
Aquilo
me decepcionou: pois se tinha de despejar o pó no lixo, por que não
recolhê-lo de uma vez com a vassoura? Evidente burrice da minha parte – o
gordinho devia estar pensando: com certeza eu esperava que o pó se
volatilizasse dentro do aspirador, num passe de mágica?
Deixei
que ele me enumerasse as outras aplicações do miraculoso aparelho:
servia para escovar um terno, por exemplo, quer ver? E voltou para mim o
cano da arma, que num terrível chupão quase me leva a manga do paletó.
-
Serve também para massagens. Com sua licença - e passou-me no rosto a
ponta do tubo. Minha pele foi repuxada sob a improvisada ventosa,
deslocando-se ruidosamente num violento beijo de cavalo.
- Basta! - protestei: - Estou convencido. Compro o aspirador.
- E digo mais - prosseguiu ele, sem me ouvir: - Serve para refrescar o ambiente. Duvida? E só virar ao contrário...
- Não duvido não. Já está comprado. - ... e funciona como um perfeito ventilador.
Fui buscar o dinheiro, paguei e despedi sumariamente o gordinho que, perplexo, continuava ainda a recitar sua lição:
- Aspira o pó dos lugares mais inacessíveis: aspira atrás das estantes, aspira cinzeiros, aspira...
- Obrigado, obrigado - e fechei a porta atrás dele.
Passei
o resto da tarde me distraindo com a nova aquisição. De todas as
maneiras: aspirei cinzeiros, estofados, cortinas, ternos, aspirei atrás
das estantes, fiz desaparecer, até o último grão, o pó existente na
casa.
Então
tentei retirar das entranhas do aspirador a tal sacola, como o gordinho
me havia ensinado. Para meu júbilo, estava bojuda como um balão. Só não
me lembrei foi de desligar o aparelho que, como ele me havia ensinado
também, virado ao contrário funciona como um perfeito ventilador: de
súbito, explode no ar uma bomba de pó acumulado. Tudo voltou ao que era
dantes, fui à cozinha buscar uma vassoura. És pó e em pó reverterás -
pensei comigo.
Fernando Sabino
Da arte de nascer e viver
Você
está instalado confortavelmente no ventre da mãe, que lhe provém de
tudo, no morno entorno do útero, e ainda assim, de vez em quando lhe dá
uns coices.
Você
começou de um ovo, com a união do espermatozoide com o óvulo. A
princípio, era uma coisa insignificante, e chegou a ser quase um peixe,
com guelras. Foi evoluindo para a forma humana, enquanto a barriga da
mãe também estufava cada vez mais.
Até
que nove meses depois (ou menos, para alguns apressadinhos), começaram
em torno de você uns empurrões para botá-lo para fora, quando não sabia
ainda que havia um fora, mas só um dentro. Os empurrões tornaram-se
insuportáveis, até que você botou a cabeça para fora, e alguém o agarrou
pelo pescoço e pelos ombros e o arrancou do lugar onde você estava
antes tão bem.
Este
parteiro, ou parteira, ainda por cima, segurando-o pelos pés, dá-lhe
umas palmadas na bunda, para que você chore e respire. Foi a primeira
agressão que você sofreu, das muitas que receberá ainda durante o resto
da vida. Cortaram-lhe então o cordão umbilical e o amarraram, para que
você se desligasse de sua mãe, que estava inundada de suor e gemia.
Limpado, foi embrulhado e posto nos braços da mãe, que logo lhe
ofereceria os seios túrgidos, para que você mamasse.
Mais
alguns dias, e você já mama com furor, o leite escorrendo da boca, e
ainda dá umas cabeçadas naqueles seios, para que saia mais leite.
Depois, outra palmadinha nas costas, e você arrota. É um menino! Ou é
uma menina! gritaram as pessoas em torno. E você quase imediatamente
recebe um nome que não escolheu, e tão desastrosamente às vezes
escolhido, que você o carregará com vergonha pelos anos a fora.
Principia
então suportar a burocracia em que estará envolvido durante anos e
anos: você vai ser registrado no Cartório das Pessoas Naturais, e
batizado numa igreja e numa religião de que nunca ouviu falar.
Ainda
bem que, nos primeiros meses, você apenas mame, dorme, chore e
desperte. E começa então a enxergar. Vê vultos ao seu redor, e que logo
se delinearão, e você reconhece primeiramente a sua mãe, pelo seu
cheiro, e pelo calor de seu corpo.
Escuta
barulhos, estouros e, para acalmá-lo, metem-lhe um bico de borracha na
boca, até, que já mais crescidinho, retiram-lhe o bico, e você vai
aprendendo confusamente que a vida é uma negação das coisas de que
gostava.
As
pessoas então começam a ensiná-lo a falar a sua língua, as palavras.
Você aprende o alemão, o francês, o italiano, ou o português, conforme o
lugar em que nasceu. Aprende também palavrões, mas imediatamente o
repreendem ou lhe dão palmadas, se os repetir.
Você já se arrasta pelo chão e, logo mais, começará a ficar de pé, como os outros.
Enquanto isso, inábil, leva tombos.
Já
enxerga, fora, as árvores, os passarinhos; vê a chuva que cai; sente o
calorão do Verão e o frio do Inverno. Vestem-no de roupa.
Familiariza-se
com os bichos, com o cachorro, com o gato, com as galinhas e com o
galo. Também, já está comendo, às colheradas, papinhas, pois o leite
dos seios da mãe vai sendo cortado. Recebe presentes, como o ursinho de
pelúcia. Recebe também beliscões inexplicáveis. É-lhe imposto saber que
existem regras a ser observadas, e que você não o fez. É proibido mijar
na cama.
Alguns
anos a mais, você é levado à escola, para aprender besteiras. Mais
tarde ainda, ouvirá falar do Binômio de Newton, e da hipotenusa. E terá
de se defender dos meninos mais crescidos, que o agridem.
Já então, sabe ler e escrever, e escreve nos muros.
De
calças compridas, admoestam-no de que é preciso trabalhar, para viver. E
se você recalcitra, exclamam: “Vá trabalhar, vagabundo!” E chegam a
botá-lo para fora de casa.
Terá
então sabido que existe o sexo. Que você tem um pênis ou uma vagina.
Que há o tal de orgasmo, e que é assim também que se fazem os filhos.
Você encontrou uma sociedade já constituída, e um Estado. Está sujeito a ele, à polícia, ao patrão. A ordem é obedecer.
Há também o pecado e outras restrições. Ameaçam-no com o inferno. E há doenças inevitáveis, e o envelhecimento.
E você afinal morre, sem ter aprendido muito bem esta dura arte de viver.
Annibal Augusto Gama
O melhor amigo
A mãe estava na sala, costurando. O menino abriu a porta da rua, meio
ressabiado, arriscou um passo para dentro e mediu cautelosamente a
distância. Como a mãe não se voltasse
Para vê-lo, deu uma corridinha em direção de seu quarto.
– Meu filho? – gritou ela.
– O que é – respondeu, com o ar mais natural que lhe foi possível.
– Que é que você está carregando aí?
Como podia ter visto alguma coisa, se nem levantara a cabeça? Sentindo-se perdido,tentou ainda ganhar tempo.
– Eu? Nada…
– Está sim. Você entrou carregando uma coisa.
Pronto: estava descoberto. Não adiantava negar – o jeito era procurar comovê-la.Veio caminhando desconsolado até a sala, mostrou à mãe o que estava carregando:
– Olha aí, mamãe: é um filhote…
Seus olhos súplices aguardavam a decisão.
– Um filhote? Onde é que você arranjou isso?
– Achei na rua. Tão bonitinho, não é, mamãe?
Sabia que não adiantava: ela já chamava o filhote de isso. Insistiu ainda:
– Deve estar com fome, olha só a carinha que ele faz.
– Trate de levar embora esse cachorro agora mesmo!
– Ah, mamãe… – já compondo uma cara de choro.
– Tem dez minutos para botar esse bicho na rua. Já disse que não quero animais aqui em casa. Tanta coisa para cuidar, Deus me livre de ainda inventar uma amolação dessas.
O menino tentou enxugar uma lágrima, não havia lágrima. Voltou para o quarto, emburrado:
A gente também não tem nenhum direito nesta casa – pensava. Um dia ainda faço um estrago louco. Meu único amigo, enxotado desta maneira!
– Que diabo também, nesta casa tudo é proibido! – gritou, lá do quarto, e ficou
esperando a reação da mãe.
– Dez minutos – repetiu ela, com firmeza.
– Todo mundo tem cachorro, só eu que não tenho.
– Você não é todo mundo.
– Também, de hoje em diante eu não estudo mais, não vou mais ao colégio, não
faço mais nada.
– Veremos – limitou-se a mãe, de novo distraída com a sua costura.
– A senhora é ruim mesmo, não tem coração!
– Sua alma, sua palma.
Conhecia bem a mãe, sabia que não haveria apelo: tinha dez minutos para brincar com seu novo amigo, e depois… ao fim de dez minutos, a voz da mãe, inexorável:
– Vamos, chega! Leva esse cachorro embora.
– Ah, mamãe, deixa! – choramingou ainda: – Meu melhor amigo, não tenho mais
ninguém nesta vida.
– E eu? Que bobagem é essa, você não tem sua mãe?
– Mãe e cachorro não é a mesma coisa.
– Deixa de conversa: obedece sua mãe.
Ele saiu, e seus olhos prometiam vingança. A mãe chegou a se preocupar: meninos nessa idade, uma injustiça praticada e eles perdem a cabeça, um recalque, complexos, essa coisa
– Pronto, mamãe!
E exibia-lhe uma nota de vinte e uma de dez: havia vendido seu melhor amigo por trinta dinheiros.
– Eu devia ter pedido cinquenta, tenho certeza que ele dava murmurou, pensativo.
Para vê-lo, deu uma corridinha em direção de seu quarto.
– Meu filho? – gritou ela.
– O que é – respondeu, com o ar mais natural que lhe foi possível.
– Que é que você está carregando aí?
Como podia ter visto alguma coisa, se nem levantara a cabeça? Sentindo-se perdido,tentou ainda ganhar tempo.
– Eu? Nada…
– Está sim. Você entrou carregando uma coisa.
Pronto: estava descoberto. Não adiantava negar – o jeito era procurar comovê-la.Veio caminhando desconsolado até a sala, mostrou à mãe o que estava carregando:
– Olha aí, mamãe: é um filhote…
Seus olhos súplices aguardavam a decisão.
– Um filhote? Onde é que você arranjou isso?
– Achei na rua. Tão bonitinho, não é, mamãe?
Sabia que não adiantava: ela já chamava o filhote de isso. Insistiu ainda:
– Deve estar com fome, olha só a carinha que ele faz.
– Trate de levar embora esse cachorro agora mesmo!
– Ah, mamãe… – já compondo uma cara de choro.
– Tem dez minutos para botar esse bicho na rua. Já disse que não quero animais aqui em casa. Tanta coisa para cuidar, Deus me livre de ainda inventar uma amolação dessas.
O menino tentou enxugar uma lágrima, não havia lágrima. Voltou para o quarto, emburrado:
A gente também não tem nenhum direito nesta casa – pensava. Um dia ainda faço um estrago louco. Meu único amigo, enxotado desta maneira!
– Que diabo também, nesta casa tudo é proibido! – gritou, lá do quarto, e ficou
esperando a reação da mãe.
– Dez minutos – repetiu ela, com firmeza.
– Todo mundo tem cachorro, só eu que não tenho.
– Você não é todo mundo.
– Também, de hoje em diante eu não estudo mais, não vou mais ao colégio, não
faço mais nada.
– Veremos – limitou-se a mãe, de novo distraída com a sua costura.
– A senhora é ruim mesmo, não tem coração!
– Sua alma, sua palma.
Conhecia bem a mãe, sabia que não haveria apelo: tinha dez minutos para brincar com seu novo amigo, e depois… ao fim de dez minutos, a voz da mãe, inexorável:
– Vamos, chega! Leva esse cachorro embora.
– Ah, mamãe, deixa! – choramingou ainda: – Meu melhor amigo, não tenho mais
ninguém nesta vida.
– E eu? Que bobagem é essa, você não tem sua mãe?
– Mãe e cachorro não é a mesma coisa.
– Deixa de conversa: obedece sua mãe.
Ele saiu, e seus olhos prometiam vingança. A mãe chegou a se preocupar: meninos nessa idade, uma injustiça praticada e eles perdem a cabeça, um recalque, complexos, essa coisa
– Pronto, mamãe!
E exibia-lhe uma nota de vinte e uma de dez: havia vendido seu melhor amigo por trinta dinheiros.
– Eu devia ter pedido cinquenta, tenho certeza que ele dava murmurou, pensativo.
Fernando Sabino
Um Apólogo
Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...
A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...
A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!
Machado de Assis
Texto extraído do livro "Para Gostar de Ler - Volume 9 - Contos", Editora Ática - São Paulo, 1984, pág. 59. Machado de Assis
Texto extraído do livro "Para Gostar de Ler - Volume 9 - Contos", Editora Ática - São Paulo, 1984, pág. 59. Machado de Assis
O menino que chupou a bala errada
Diz que era um menininho que adorava bala e isto não lhe dava
qualquer condição de originalidade, é ou não é? Tudo que é menininho
gosta de bala. Mas o garoto desta história era tarado por bala. Ele
tinha assim uma espécie de ideia fixa, uma coisa assim… assim, como
direi? Ah… creio que arranjei um bom exemplo comparativo: o garoto tinha
por bala a mesma loucura que o Sr. Lacerda tem pelo poder. [Eu, Yuri, diria “a mesma loucura que o Sr. Lula tem pelo poder”. Entendeu agora?]
Vai daí um dia o pai do menininho estava limpando o revólver e, para
que a arma não lhe fizesse uma falseta, descarregou-a, colocando as
balas em cima da mesa. O menininho veio lá do quintal, viu aquilo ali e
perguntou pro pai o que era:
– É bala – respondeu o pai, distraído.
Imediatamente o menininho pegou diversas, botou na boca e engoliu,
para desespero do pai, que não medira as consequências de uma informação
que seria razoável a um filho comum, mas não a um filho que não podia
ouvir falar em bala que ficava tarado para chupá-las.
Chamou a mãe (do menino), explicou o que ocorrera e a pobre senhora
saiu desvairada para o telefone, para comunicar a desgraça ao médico.
Esse tranquilizou a senhora e disse que iria até lá, em seguida.
Era um velho clínico, desses gordos e bonachões, acostumados aos
pequenos dramas domésticos. Deu um laxante para o menininho e esclareceu
que nada de mais iria ocorrer. Mas a mãe estava ainda aflita e
insistiu:
– Mas não há perigo de vida, doutor?
– Não – garantiu o médico: – Para o menino não há o menor perigo de vida. Para os outros talvez.
– Para os outros? – estranhou a senhora.
– Bem… – ponderou o doutor: – o que eu quero dizer é que, pelo menos
durante o período de recuperação, talvez fosse prudente não apontar o
menino para ninguém.
______
De Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo de Sérgio Porto).
Fonte: “365 – Seleção de Leitura e Informação”, 1973
Verbo Ser
Que vai ser quando crescer? Vivem
perguntando em redor. Que é ser? É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome,
corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce? É terrível,
ser? Dói? É bom? É triste? Ser: pronunciado tão depressa, e cabe tantas
coisas? Repito: ser, ser, ser. Er. R. Que vou ser quando crescer? Sou
obrigado a? Posso escolher? Não dá para entender. Não vou ser. Não quero
ser Vou crescer assim mesmo. Sem ser. Esquecer.
domingo, 24 de dezembro de 2017
Este Natal
— Este Natal anda muito perigoso — concluiu João Brandão, ao ver dois PM
travarem pelos braços o robusto Papai Noel, que tentava fugir, e o conduzirem a trancos e
barrancos para o Distrito. Se até Papai Noel é considerado fora-da-lei, que não
acontecerá com a gente?
Logo lhe explicaram que
aquele era um falso velhinho, conspurcador das vestes amáveis. Em vez de dar presentes,
tomavaos das lojas onde a multidão se comprime, e os vendedores, afobados com a
clientela, não podem prestar atenção a tais manobras. Fora apanhado em flagrante, ao
furtar um rádio transistor, e teria de despir a fantasia.
— De qualquer
maneira, este Natal é fogo — voltou a ponderar Brandão, pois se os ladrões se
disfarçam em Papai Noel, que garantia tem a gente diante de um bispo, de um almirante, de
um astronauta? Pode ser de verdade, pode ser de mentira; acabou-se a confiança no
próximo.
De resto, é isso mesmo
que o jornal recomenda: "Nesta época do Natal, o melhor é desconfiar
sempre”.Talvez do próprio Menino Jesus, que, na sua inocência cerâmica, se for de
tamanho natural, poderá esconder não sei que mecanismo pérfido, pronto a subtrair tua
carteira ou teu anel, na hora em que te curvares sobre o presépio para beijar o divino
infante.
O gerente de uma loja de
brinquedos queixou-se a João que o movimento está fraco, menos por falta de dinheiro que
por medo de punguistas e vigaristas. Alertados pela imprensa, os cautelosos preferem não
se arriscar a duas eventualidades: serem furtados ou serem suspeitados como afanadores,
pois o vendedor precisa desconfiar do comprador: se ele, por exemplo, já traz um
pacote, toda cautela é pouca. Vai ver, o pacote tem fundo falso, e destina-se a recolher
objetos ao alcance da mão rápida.
O punguista é a
delicadeza em pessoa, adverte-nos a polícia. Assim, temos de desconfiar de todo
desconhecido que se mostre cortês; se ele levar a requintes sua gentileza, o melhor é
chamar o Cosme e depois verificar, na delegacia, se se trata de embaixador aposentado, da
era de Ataulfo de Paiva e D. Laurinda Santos Lobo, ou de reles lalau.
Triste é desconfiar da
saborosa moça que deseja experimentar um vestido, experimenta, e sai com ele sem pagar,
deixando o antigo, ou nem esse. Acontece — informa um detetive, que nos inocula a
suspeita prévia em desfavor de todas as moças agradáveis do Rio de Janeiro. O Natal de
pé atrás, que nos ensina o desamor.
E mais. Não aceite o
oferecimento do sujeito sentado no ônibus, que pretende guardar sobre os joelhos o seu
embrulho.
Quem use botas, seja ou não Papai Noel, olho nele: é esconderijo
de objetos surrupiados. Sua carteira, meu caro senhor, deve ser presa a um alfinete de
fralda, no bolso mais íntimo do paletó; e se, ainda assim, sentir-se ameaçado pelo
vizinho de olhar suspeito, cerre o bolso com fita durex e passe uma tela de arame fino e
eletrificado em redor do peito. Enterrar o dinheiro no fundo do quintal não adianta,
primeiro porque não há quintal, e, se houvesse, dos terraços dos edifícios em redor,
munidos de binóculos, ladrões implacáveis sorririam da pobre astúcia.
Eis os conselhos que nos
dão pelo Natal, para que o atravessemos a salvo. Francamente, o melhor seria suprimir o
Natal e, com ele, os especialistas em furto natalino. Ou — ideia de João Brandão,
o sempre inventivo — comemorá-lo em épocas incertas, sem aviso prévio, no maior
silêncio, em grupos pequenos de parentes, amigos e amores, unidos na paz e na confiança
de Deus.
Carlos Drummond de Andrade
quinta-feira, 26 de maio de 2016
Não sei se você se lembra
ENTÃO, não sei se você se lembra, nos veio aquela vontade súbita de comer siris.
Havia anos que nós não comíamos siris e a vontade surgiu de uma conversa sobre os
almoços de antigamente. Lembro-me bem — e não sei se você se lembra — que o
primeiro a ter vontade de comer siris fui eu, mas que você aderiu logo a ela, com aquele
entusiasmo que lhe é peculiar, sempre que se trata de comida ou de mulher.
Então, não sei se você se lembra, começamos a rememorar os lugares onde se poderia encontrar uma boa batelada de siris, para se comprar, cozinhar num panelão e ficar comendo de mãos meladas, chão cheio de cascas do delicioso crustáceo e mais uma para rebater de vez em quando. E só de pensar nisso a gente deixou pra lá a vontade pura e simples e passou a ter necessidade premente de comer siris.
Então, não sei se você se lembra, telefonamos para o Raimundo, que era o campeão brasileiro de siris e, noutros tempos, dava famosos festivais do apetitoso bicho em sua casa. Ele disse que, aos domingos, perto do Maracanã, havia um botequim que servia siris maravilhosos, ao cair da tarde. Não sei se você se lembra que ele frisou serem aqueles os melhores siris do Rio, como também os únicos em disponibilidade, numa época em que o siri anda vasqueiro e só é vendido naquelas insípidas casquinhas.
Ah... foi uma alegria saber que era domingo e havia siris comíveis e, então, nos dois — não sei se você se lembra — apesar da fome que o uisquinho estava nos dando — resolvemos não almoçar para ficar com mais vontade ainda de comer siris. Passamos incólumes pela refeição, enquanto o resto do pessoal entrava firme num feijão que cheirava a coisa divina do céu dos glutões. O pessoal — aliás — achava que era um exagero nosso, guardar boca para um siri que só comeríamos à tarde, porque podíamos perfeitamente ter preparo estomacal para eles, após o almoço.
Mas — não sei se você se lembra — fomos de uma fidelidade espartana aos siris. Saímos para o futebol com uma fome impressionante e passamos o jogo todo a pensar nos siris que comeríamos ao sair do Maracanã.
Então — não sei se você se lembra — saímos dali como dois monges tibetanos a caminho da redenção e chegamos no tal botequim. Então — não sei se você se lembra — que a gente chegou e o homem do botequim disse que o siri já tinha acabado.
Então, não sei se você se lembra, começamos a rememorar os lugares onde se poderia encontrar uma boa batelada de siris, para se comprar, cozinhar num panelão e ficar comendo de mãos meladas, chão cheio de cascas do delicioso crustáceo e mais uma para rebater de vez em quando. E só de pensar nisso a gente deixou pra lá a vontade pura e simples e passou a ter necessidade premente de comer siris.
Então, não sei se você se lembra, telefonamos para o Raimundo, que era o campeão brasileiro de siris e, noutros tempos, dava famosos festivais do apetitoso bicho em sua casa. Ele disse que, aos domingos, perto do Maracanã, havia um botequim que servia siris maravilhosos, ao cair da tarde. Não sei se você se lembra que ele frisou serem aqueles os melhores siris do Rio, como também os únicos em disponibilidade, numa época em que o siri anda vasqueiro e só é vendido naquelas insípidas casquinhas.
Ah... foi uma alegria saber que era domingo e havia siris comíveis e, então, nos dois — não sei se você se lembra — apesar da fome que o uisquinho estava nos dando — resolvemos não almoçar para ficar com mais vontade ainda de comer siris. Passamos incólumes pela refeição, enquanto o resto do pessoal entrava firme num feijão que cheirava a coisa divina do céu dos glutões. O pessoal — aliás — achava que era um exagero nosso, guardar boca para um siri que só comeríamos à tarde, porque podíamos perfeitamente ter preparo estomacal para eles, após o almoço.
Mas — não sei se você se lembra — fomos de uma fidelidade espartana aos siris. Saímos para o futebol com uma fome impressionante e passamos o jogo todo a pensar nos siris que comeríamos ao sair do Maracanã.
Então — não sei se você se lembra — saímos dali como dois monges tibetanos a caminho da redenção e chegamos no tal botequim. Então — não sei se você se lembra — que a gente chegou e o homem do botequim disse que o siri já tinha acabado.
Stanislaw Ponte Preta
A crônica acima consta do livro "Garoto Linha Dura", lançamento da Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1964, pág. 163.
sábado, 21 de novembro de 2015
O nascimento da crônica
Há um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade. É dizer: Que calor! Que
desenfreado calor! Diz-se isto, agitando as pontas do lenço, bufando como um touro, ou
simplesmente sacudindo a sobrecasaca. Resvala-se do calor aos fenômenos atmosféricos,
fazem-se algumas conjeturas acerca do sol e da lua, outras sobre a febre amarela, manda-se
um suspiro a Petrópolis, e La glace est rompue; está começada a crônica.
Mas, leitor amigo, esse meio é mais velho ainda do que as crônicas, que apenas datam de Esdras. Antes de Esdras, antes de Moisés, antes de Abraão, Isaque e Jacó, antes mesmo de Noé, houve calor e crônicas. No paraíso é provável, é certo que o calor era mediano, e não é prova do contrário o fato de Adão andar nu. Adão andava nu por duas razões, uma capital e outra provincial. A primeira é que não havia alfaiates, não havia sequer casimiras; a segunda é que, ainda havendo-os, Adão andava baldo ao naipe. Digo que esta razão é provincial, porque as nossas províncias estão nas circunstâncias do primeiro homem.
Quando a fatal curiosidade de Eva fez-lhes perder o paraíso, cessou, com essa degradação, a vantagem de uma temperatura igual e agradável. Nasceu o calor e o inverno; vieram as neves, os tufões, as secas, todo o cortejo de males, distribuídos pelos doze meses do ano.
Não posso dizer positivamente em que ano nasceu a crônica; mas há toda a probabilidade de crer que foi coetânea das primeiras duas vizinhas. Essas vizinhas, entre o jantar e a merenda, sentaram-se à porta, para debicar os sucessos do dia. Provavelmente começaram a lastimar-se do calor. Uma dia que não pudera comer ao jantar, outra que tinha a camisa mais ensopando que as ervas que comera. Passar das ervas às plantações do morador fronteiro, e logo às tropelias amatórias do dito morador, e ao resto, era a coisa mais fácil, natural e possível do mundo. Eis a origem da crônica.
Que eu, sabedor ou conjeturador de tão alta prosápia, queira repetir o meio de que lançaram mãos as duas avós do cronista, é realmente cometer uma trivialidade; e contudo, leitor, seria difícil falar desta quinzena sem dar à canícula o lugar de honra que lhe compete. Seria; mas eu dispensarei esse meio quase tão velho como o mundo, para somente dizer que a verdade mais incontestável que achei debaixo do sol é que ninguém se deve queixar, porque cada pessoa é sempre mais feliz do que outra.
Não afirmo sem prova.
Fui há dias a um cemitério, a um enterro, logo de manhã, num dia ardente como todos os diabos e suas respectivas habitações. Em volta de mim ouvia o estribilho geral: que calor! Que sol! É de rachar passarinho! É de fazer um homem doido!
Íamos em carros! Apeamo-nos à porta do cemitério e caminhamos um longo pedaço. O sol das onze horas batia de chapa em todos nós; mas sem tirarmos os chapéus, abríamos os de sol e seguíamos a suar até o lugar onde devia verificar-se o enterramento. Naquele lugar esbarramos com seis ou oito homens ocupados em abrir covas: estavam de cabeça descoberta, a erguer e fazer cair a enxada. Nós enterramos o morto, voltamos nos carros, c dar às nossas casas ou repartições. E eles? Lá os achamos, lá os deixamos, ao sol, de cabeça descoberta, a trabalhar com a enxada. Se o sol nos fazia mal, que não faria àqueles pobres-diabos, durante todas as horas quentes do dia?
Mas, leitor amigo, esse meio é mais velho ainda do que as crônicas, que apenas datam de Esdras. Antes de Esdras, antes de Moisés, antes de Abraão, Isaque e Jacó, antes mesmo de Noé, houve calor e crônicas. No paraíso é provável, é certo que o calor era mediano, e não é prova do contrário o fato de Adão andar nu. Adão andava nu por duas razões, uma capital e outra provincial. A primeira é que não havia alfaiates, não havia sequer casimiras; a segunda é que, ainda havendo-os, Adão andava baldo ao naipe. Digo que esta razão é provincial, porque as nossas províncias estão nas circunstâncias do primeiro homem.
Quando a fatal curiosidade de Eva fez-lhes perder o paraíso, cessou, com essa degradação, a vantagem de uma temperatura igual e agradável. Nasceu o calor e o inverno; vieram as neves, os tufões, as secas, todo o cortejo de males, distribuídos pelos doze meses do ano.
Não posso dizer positivamente em que ano nasceu a crônica; mas há toda a probabilidade de crer que foi coetânea das primeiras duas vizinhas. Essas vizinhas, entre o jantar e a merenda, sentaram-se à porta, para debicar os sucessos do dia. Provavelmente começaram a lastimar-se do calor. Uma dia que não pudera comer ao jantar, outra que tinha a camisa mais ensopando que as ervas que comera. Passar das ervas às plantações do morador fronteiro, e logo às tropelias amatórias do dito morador, e ao resto, era a coisa mais fácil, natural e possível do mundo. Eis a origem da crônica.
Que eu, sabedor ou conjeturador de tão alta prosápia, queira repetir o meio de que lançaram mãos as duas avós do cronista, é realmente cometer uma trivialidade; e contudo, leitor, seria difícil falar desta quinzena sem dar à canícula o lugar de honra que lhe compete. Seria; mas eu dispensarei esse meio quase tão velho como o mundo, para somente dizer que a verdade mais incontestável que achei debaixo do sol é que ninguém se deve queixar, porque cada pessoa é sempre mais feliz do que outra.
Não afirmo sem prova.
Fui há dias a um cemitério, a um enterro, logo de manhã, num dia ardente como todos os diabos e suas respectivas habitações. Em volta de mim ouvia o estribilho geral: que calor! Que sol! É de rachar passarinho! É de fazer um homem doido!
Íamos em carros! Apeamo-nos à porta do cemitério e caminhamos um longo pedaço. O sol das onze horas batia de chapa em todos nós; mas sem tirarmos os chapéus, abríamos os de sol e seguíamos a suar até o lugar onde devia verificar-se o enterramento. Naquele lugar esbarramos com seis ou oito homens ocupados em abrir covas: estavam de cabeça descoberta, a erguer e fazer cair a enxada. Nós enterramos o morto, voltamos nos carros, c dar às nossas casas ou repartições. E eles? Lá os achamos, lá os deixamos, ao sol, de cabeça descoberta, a trabalhar com a enxada. Se o sol nos fazia mal, que não faria àqueles pobres-diabos, durante todas as horas quentes do dia?
Machado de Assis
O texto acima foi publicado no livro "Crônicas Escolhidas”, Editora Ática – São Paulo, 1994, pág. 13, e extraído do livro "As Cem Melhores Crônicas Brasileiras", Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2007, pág. 27, organização e introdução de Joaquim Ferreira dos Santos.
sexta-feira, 1 de maio de 2015
As palavras
Vinte linhas, ou até menos - cinco, duas linhas, é quanto tenho podido acrescentar cada noite à história que comecei a escrever já faz tanto tempo e que me prometi contar até o fim. Quando os dedos emperram sobre o teclado, penso comigo mesmo, olhando com desalento o papel branco e morto, que duro é esse ofício de escrever quando dele não se quer fazer um ato gratuito.
as palavras, há tanto tempo sem uso, tenho de descobri-las, ir buscá-las nas memórias enevoadas, mas já não é mais como antes, quando elas acorriam ao primeiro chamado, apresentadas, e saltavam da cabeça como pássaros de uma gaiola aberta. Eram tantas, sentiam-se asfixiar, queriam a liberdade - e se libertavam. Muitas foram as que se livraram assim e livre viveram por algum tempo. Mas foram muitas também as que, lá fora sob o céu azul, não disseram nada, porque nada tinham a dizer.
xxx
Agora tenho que despertá-las, lá no fundo, como quem acutila um bicho acuado que não quer deixar a jaula. E depois de desentocá-las, é preciso ainda poli-las (ou tirar o verniz que as falseia) e exigir delas, em nome desse pudor que é a ferrugem de quem envelhece, que digam com exatidão o que quero dizer - nem mais, nem menos: como uma conta certa.
Assim policiado, o oficio de escrever se transforma num tormento, é como o exercício de um aprendiz. Melhor: como a ginástica solitária e cheia de dores de um enfermo que se engana a si mesmo na tentativa de recuperar os movimentos do copro entrevado, entregando-se submisso ao sofrimento, sem queixa sem protesto.
Joel Silveira
sábado, 25 de abril de 2015
A traição das elegantes
“As fotos estão sensacionais, mas algumas das elegantes não souberam posar” – confessou Ibrahim Sued a respeito da reportagem em cores sobre as “Mais Elegantes de 1967″ publicada em Manchete.
A verdade é mais grave, e todos a sentem: as “Mais Elegantes” estão às vezes francamente ridículas, às vezes com um ar de boboca e jeca, às vezes simplesmente banais. A culpa não será de Ibrahim, nem do fotógrafo, nem da revista, nem das senhoras; o que aconteceu é misterioso, desagradável, mas completamente indisfarçável: alguém ou, digamos, Algo, Algo com maiúscula, fez uma brincadeira de mau gosto, ou talvez, o que é pior, uma coisa séria e não uma brincadeira; como se fossem as três palavras de advertência que certa mão traçou na parede do salão de festim de Baltazar; apenas não escreveu nas paredes, mas nas próprias figuras humanas, em seus olhos e semblantes, em suas mãos e seus corpos: “Deus contou o dia de teus reinos e lhes marcou o fim; pesado foste na balança, e te faltava peso; dividido será teu reino”.
Oh, não, eu não quero ser o profeta Daniel da Rua do Riachuelo; mas aconteceu alguma coisa, e essas damas que eram para ser como símbolos supremos de elegância e distinção, mitos e sonhos da plebe, Algo as carimbou na testa com o “Manê, Tekel, Farés” da vulgaridade pomposa e fora de tempo. Oh, digamos que escapou apenas uma e que há uma outra que não está assim tão mal. Mas as doze restantes (pois desta vez são catorze) que aura envenenada lhes tirou o encanto, e as deixou ali tão enfeitadas e tão banais, tão pateticamente sem graça, expostas naquelas páginas coloridas como risíveis manequins em uma vitrina de subúrbio?
Que aconteceu? Ninguém pode duvidar da elegância dessas damas, mesmo porque muitas não fazem outra coisa a não ser isto: ser elegantes. Elas são parte do patrimônio emocional e estético da Nação, são respeitadas, admiradas, invejadas, adoradas desde os tempos de “Sombra”; vivem em nichos de altares invisíveis, movem-se em passarelas de supremo prestigio mundano – e subitamente, oh! ai! ui! um misterioso Satanás as precipita no inferno imóvel da paspalhice e do tédio, e as prende ali, com seus sorrisos parados, seus olhos fixos a fitar o nada, estupidamente o nada – quase todas, meu Deus, tão “Shangai”, tão “Shangai” que nos inspiram uma certa vergonha – o Itamarati devia proibir a exportação desse número da revista para que não se riam demasiado de nós lá fora!
Não sou místico; custa-me acreditar que algum Espírito Vingador tenha feito esse milagre contrário. A culpa será talvez da “Revolução”, que tornou os ricos tão seguros de si mesmos, tão insensatos e vitoriosos e ostentadores e fátuos que suas mulheres perderam o desconfiômetro, e elas envolvem os corpos em qualquer pano berrante que melífluos costureiros desenham e dizem – “a moda é isto” – e se postam ali, diante da população cada vez mais pobre, neste país em que mínguam o pão e o remédio, e se suprimem as liberdades – coloridas e funéreas, ajaezadas, e ocas, vazias e duras, sem espírito e sem graça nenhuma.
Há poucos meses, ao aceno de uma revista americana, disputaram-se algumas delas a honra de serem escolhidas, como mocinhas de subúrbio querendo ser “misses”, e no fim apareceram numas fotos de publicidade comercial, prosaicamente usadas como joguetes de gringos espertos. Desta vez é pior: não anunciaram nada a não ser a inanidade de si mesmas tragicamente despojadas de seus feitiços.
Direi que a derrota das “Mais Elegantes” não importa… Importa! As moças pobres e remediadas, a normalista, a filha do coronel do Exército que mora no Grajaú, a funcionaria da coletoria estadual de Miracema, a noiva do eletricista – todas aprenderam a se mirar nessas deusas, a suspirar invejando-as, mas admirando-as; era o charme dessas senhoras, suas festas, suas viagens, suas legendas douradas de luxo que romantizavam a riqueza e o desnível social; eram aves de luxo que enobreciam com sua graça a injustiça fundamental da sociedade burguesa.
Elas tinham o dever de continuar maravilhosas, imarcescíveis, magníficas. É possível que pessoalmente assim continuem; mas houve aquele momento em que um vento escarninho as desfigurou em plebéias enfeitadas, em caricaturas de si mesmas, espaventosas e frias.
Quero frisar que dessas senhoras são poucas as que conheço pessoalmente, e lhes dedico a maior admiração e o mais cuidadoso respeito. Não há, neste caso, nenhuma implicação pessoal. Estou apenas ecoando um sentimento coletivo de pena e desgosto, de embaraço e desilusão: nossas deusas apareceram de súbito a uma luz galhofeira, ingrata e cruel; sentimo-nos traídos, desapontados, constrangidos, desamparados e sem fé.
É duro confessar isto, mas é preciso forrar o coração de dureza, porque não sabemos se tudo isso é o fim de uma era ou o começo de uma nova era mais desolada e difícil de suportar.
Rubem Braga
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
Diz-se que a crônica é um gênero literário tipicamente brasileiro e sempre são invocados os nomes de Rubem Braga, Fernando Sabino, Luís Fernando Verissimo, além de outros, hoje menos lidos, como Carlos Eduardo Novaes ou Henrique Pongetti. O que nem sempre se comenta é que dentro do gênero crônica existem subgêneros, e um deles é a crônica rural, que se confunde com a anedota e o “cáuso”.
No Sertão Onde Eu Vivia de Zelito Nunes (Recife, editora do autor, 2014) é um bom exemplo da crônica que, ao invés de descrever os mil e um aspectos da rica e multiforme vida urbana descreve os mil e um aspectos da rica e multiforme vida rural. Digo assim para combater o conceito equivocado de que a vida urbana é de uma multiplicidade inesgotável de tipos humanos, interações sociais, formas de comportamento, demonstrações de humor, inteligência, presença de espírito, etc., e que a vida rural é uma pasmaceira uniforme ao som de mugidos de gado.
Ledo engano. Sem falar em Leonardo Mota etc., aqui mesmo na Paraíba tivemos o inesgotável José Cavalcanti e seus livrinhos recheados de tipos populares e linguagem pitoresca. A vida nos sítios, fazendas e vilarejos do interior pode, sim, ser tão rica e variada quanto a vida que fervilha em torno do Mercado Modelo ou na Praia de Copacabana. Precisa apenas de gente com olhos e ouvidos atentos, excelente memória, e capacidade para colocar no papel esses episódios que, também no interior, mal cabem no estreito espaço das 24 horas de um dia.
Zelito Nunes, nascido em Monteiro e radicado no Recife, tem uma série de coletâneas de crônicas nessa veia (uma delas, Folha de Boldo: Notícias de Cachaceiros, em parceria com Jessier Quirino), retratando a vida do Cariri e do Pajeú. Seria, mal comparando, a mesma riqueza de tipos (só que no meio rural) que encontramos na Zona Norte carioca da Rua dos Artistas e Transversais de Aldir Blanc. Além dos versos de cantadores que anota há décadas, Zelito Nunes conta histórias de camelôs, fazendeiros, vaqueiros, confusões entre bêbos e donos de bodegas, soldados de polícia, arruaceiros. Aventuras mirabolantes ou desastradas vividas por gente com um parafuso a menos na cabeça e uma vida mais interessante do que a nossa. Sem falar nas recordações de uma infância vivida na fazenda, como a história da cabra com medo de lanterna elétrica ou o dia em que ele fugiu de casa e ninguém da família percebeu. São memórias de uma vida rústica e aventurosa, evocada nesta sextilha de Manoel Filó: “Namorar em Mundo Novo / todas as noites eu ia / voltava de madrugada / quando o sono me tangia / molhando a barra da calça / na rama da melancia.”
Bráulio Tavares
(Mundo Fantasmo)
sábado, 1 de novembro de 2014
Luz de lanterna, sopro de vento
Tendo o marido partido para a guerra, na primeira noite da sua ausência a mulher acendeu uma lanterna e pendurou-a do lado de fora da casa. "Para trazê-lo de volta," murmurou. E foi dormir.
Mas, ao abrir a porta na manhã seguinte, deparou-se com a lanterna apagada. "Foi o vento da madrugada," pensou olhando para o alto como se pudesse vê-lo soprar.
À noite, antes de deitar, novamente acendeu a lanterna que, a distância deveria indicar ao seu homem o caminho de casa.
Ventou de madrugada. Mas era tão tarde e ela estava tão cansada que nada ouviu, nem o farfalhar das árvores, nem o gemido das frestas, nem o ranger das argolas da lanterna. E de manhã surpreendeu-se ao encontrar a luz apagada.
Naquela noite, antes de acender a lanterna, demorou-se estudando o céu límpido, as claras estrelas. "Na certa não ventará," disse em voz alta, quase dando uma ordem. E encostou a chama do fósforo no pavio.
Se ventou ou não, ela não saberia dizer. Mas antes que o dia raiasse não havia mais nenhuma luz, a casa desaparecia nas trevas.
Assim foi durante muitos e muitos dias, a mulher sem nunca desistir acendendo a lanterna que o vento, com igual constância apagava.
Talvez meses tivessem passado quando num entardecer, ao acender a lanterna, a mulher viu ao longe recortada contra a luz que lanhava em sangue o horizonte, a silhueta escura de um homem a cavalo. Um homem a cavalo que galopava na sua direção.
Aos poucos, apertando os olhos para ver melhor, destinguiu a lança erguida ao lado da sela, os duros contornos da couraça. Era um soldado que vinha. Seu coração hesitou entre o medo e a esperança. O fôlego se reteve por instantes entre lábios abertos. E já podia ouvir os cascos batendo sobre a terra, quando começou a sorrir. Era seu marido que vinha.
Apeou o marido. Mas só com um braço rodeou-lhe os ombros. A outra mão pousou na empunhadura da espada. Nem fez menção de encaminhar-se para a casa.
Que não se iludisse. A guerra não havia acabado. Sequer havia acabado a batalha que deixara pela manhã. Coberto de poeira e sangue, ainda assim não havia vindo para ficar. "Vim porque a luz que você acende à noite não me deixa dormir," disse-lhe quase ríspido. "Brilha por trás das minhas pálpebras fechadas, como se me chamasse. "Só de madrugada depois que o vento sopra posso adormecer."
A mulher nada disse. Nada pediu. Encostou a mão no peito do marido, mas o coração dele parecia distante, protegido pelo couro da couraça.
"Deixe-me fazer o que tem de ser feito, mulher," disse sem beijá-la. De um sopro apagou a lanterna. Montou a cavalo, partiu. Adensavam-se as sombras, e ela não pode sequer vê-lo afastar-se contra o céu.
A partir daquela noite, a mulher não acendeu mais nenhuma luz. Nem mesmo a vela dentro de casa, não fosse a chama acender-se por trás das pálbebras do marido.
No escuro, as noites se consumiam rápidas. E com elas carregavam os dias, que a mulher nem contava. Sem saber ao certo quanto tempo havia passado, ela sabia porém que era tanto.
E, passado , num final de tarde em que a soleira da porta despedia-se da última luz no horizonte, viu desenhar-se lá longe a silhueta de um homem. Um homem à pé que caminhava na sua direção. Protegeu os olhos com a mão para ver melhor e aos poucos, porque o homem avançava devagar, começou a distinguir a cabeça baixa, o contorno dos ombros cansados. Contorno doce, sem couraça, retendo o sorriso nos lábios- tantos homens haviam passado sem que nenhum fosse o que ela esperava. Ainda não podia ver-lhe o rosto, oculto entre a barba e o chapéu, quando deu o primeiro passo e correu ao seu encontro, liberando o coração. Era seu marido que voltava da guerra.
Não precisou perguntar-lhe se havia vindo para ficar. Caminharam até a casa. Já iam entrar. Quando ele se reteve. Sem pressa voltou-se, e, embora a noite ainda não tivesse chegado, acendeu a lanterna. Só entrou com a mulher. E fechou a porta.
COLASANTI, Marina."Luz de lanterna, sopro de vento ". IN: Um Espinho de Marfim e outras histórias. Porto Alegre: L&PM. p. 39,1999.
segunda-feira, 28 de julho de 2014
Biografia
Jamais hei de
saber a imagem que os outros têm de mim. Eu me conheço dos espelhos, das
fotografias dos reflexos, quando meus olhos param para se olhar e a diferença de
ângulos impede criar uma dimensão real. Não sei os movimentos do meu rosto.
Nunca me vi pela primeira vez. Tenho, de mim mesma, uma idéia preconcebida que
alia o espírito aos traços fisionômicos e ao desejo de uma outra beleza. Criei,
assim, uma pessoa invisível, mais real, para mim, do que qualquer outra. Dessa
pessoal eu gosto. E, talvez por saber-me sua única amiga, ela me enternece
profundidade.
Vejo um rosto oval, de maçãs altas, a linha fácil e cheia
descendo até meu queixo redondo, com uma doçura infantil. Os olhos grandes,
plantados com sabedoria, são verdes, compridos, muito separados; tôda vez que
alguém busca em mim algo a elogiar, apega-se aos olhos, e ficou-me convencido
que tenho olhos bonitos. Entre eles, ocupando mais espaço do que o estritamente
necessário, meu nariz é elemento básico para manter viva a ilusão de que no dia
em que resolver ficar bonita, será suficiente operá-lo. A bôca, desenhada em
redondos, tem o lábio superior pequeno e o de baixo cheio; divide-se, nítida, em
luz e sombra, e somente os cantos virados para baixo a diferenciam de minha bôca
de menina.
Ao
redor da cabeça pequena sinto o cabelo despenteado. Curto, desce em vírgulas
sôbre a testa, diante das orelhas e na nuca, deixando livre o pescoço. Sempre
tive a impressão de um pescoço gracioso e longo, impressão provàvelmente devida
à magreza com que surge dos ombros, prêso por tendões fortes, como se fôsse um
esfôrço erguer-se entre os omoplatas.
Vejo um corpo de garôto, os ossos largos e parente
confirmando a boa estrutura. Nos meus braços, o sol desenha veias e músculos. As
costas são mais estreitas do que deveriam. Os seios, promessa nunca
concretizada. A cintura, pequena. Nos quadris e nas pernas, uma capacidade de
fôrça não solicitada. As mãos prendem-se ao punho sem hesitação, a palma é
larga, os dedos fortes. Os pés são de pedra.
Quando me olho nas vitrines, de soslaio, tenho a passo
seguro. Ando rápida, um pouco por pressa, um pouco pelo prazer físico de sentir
o corpo em ação, obediente e jovem. Gosto de andar, e o faço com cuidado,
sentindo o balanço e o apoio, prestando atenção. Tenho muito amor a meus gestos.
Quase não pisco. Às vêzes, a intensidade com que olho,
querendo ver, doi-me nas têmporas. Quando estou sozinha nunca sorrio, mas sorrio
muito, com prazer e consciência, quando companhia.
Quisera ser mais frágil do que sou. E me orgulho de minha
fôrça. Meu rosto é antigo. Ninguém mais moderno. Jovem, tenho tôda a minha
velhice. A resistência me assusta. A liberdade me pesa. Não quero ser
livre.
Gostaria de ser como os outros me vêm. Ou que os outros
me vissem como sou. Haveria, assim, uma única pessoa.
Marina Colasanti
domingo, 20 de abril de 2014
Neném Pelado
Neném Pelado
ajeita a cabeleira negra. Cabelo pintado, "que o homem tem de prezar a
aparência". E ri sacudindo o queixo, o maxilar toureando a dentadura dentro da
boca. Nasceu Silício, o nome que o pai alfaiate ouviu num programa de rádio e
achou lindo. Mas Silício - para desgosto do pai - ninguém guardava. O
molequinho, que andava nu por entre as tiras de gabardine e tafetá espalhadas no
chão da oficina, virou, então, Neném Pelado.
A ninguém mais
causam estranheza a longevidade e a incongruência do apelido aplicado ao homem
de setenta anos. É assim que os vizinhos o chamam e é assim que é conhecido em
Jessiape, cidadezinha baiana às margens do rio Contas, no sopé da Chapada
Diamantina.
Neném Pelado me
recebe na porta, muito bem-composto, com sandálias, bermuda de tergal e uma
camiseta do São Paulo Futebol Clube. Não por ser torcedor, mas porque gosta de
vestir branco.
Com o dedo, aponta
para a placa pregada no coqueiro do quintal: Jardim do Éden. O paraíso idílico
de chão batido tem escassos atrativos. Um toldo de lona protege um colchão puído
do rigor do adobe, inacabado e tosco, Neném Pelado mantém
inabitado.
- Só sou digno de
morar ali quando encontrar o que procuro - diz, entrando comigo no casebre para
explicar melhor.
Banheiro, sala,
cozinha, todos os cômodos órfãos de vida e mobília, peças vazias, empoeiradas.
Todos, menos um. No único quarto, há uma cama branca coberta com uma colcha de
cetim cor-de-rosa e adornada por almofadas em forma de coração. Na parede,
gravuras com paisagens alpinas. Sobre o criado-mudo, um pequeno abajur
florido.
- É para o meu
amor - esclarece, voltando para o exílio autoimposto de um Éden sem
Eva.
Deita-se no
colchão e, debaixo do toldo, mostra a carta que escreveu para a rádio da cidade:
"Senhor distinto procura coração solitário...".
Oh, damas da
Bahia, ouvi o apelo do romântico cavalheiro de Jussiape, salvai a humanidade
inteira, fazei soar nas ondas do rádio o golpe fatal a extirpar a solidão do
vale do rio Contas, pois, sobre a cama, há uma colcha de cetim para acomodar
todo o amor do mundo.
Marcelo
Canellas, in Províncias. Crônicas da alma interiorana, pag.
49
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
No ano passado
Já repararam como
é bom dizer "o ano passado"? É como quem já tivesse atravessado um rio, deixando
tudo na outra margem...Tudo sim, tudo mesmo! Porque, embora nesse "tudo" se
incluam algumas ilusões, a alma está leve, livre, numa extraodinária sensação de
alívio, como só se poderiam sentir as almas desencarnadas. Mas no ano passado,
como eu ia dizendo, ou mais precisamente, no último dia do ano passado deparei
com um despacho da Associeted Press em que, depois de anunciado como se
comemoraria nos diversos países da Europa a chegada do Ano Novo, informava-se o
seguinte, que bem merece um parágrafo à parte:
"Na Itália, quando soarem os sinos à meia-noite, todo mundo atirará pelas janelas as panelas velhas e os vasos rachados".
Ótimo! O meu ímpeto, modesto mas sincero, foi atirar-me eu próprio pela janela, tendo apenas no bolso, à guisa de explicação para as autoridades, um recorte do referido despacho. Mas seria levar muito longe uma simples metáfora, aliás praticamente irrealizável, porque resido num andar térreo. E, por outro lado, metáforas a gente não faz para a Polícia, que só quer saber de coisas concretas. Metáforas são para aproveitar em versos...
Atirei-me, pois, metaforicamente, pela janela do tricentésimo-sexagésimo-quinto andar do ano passado.
"Na Itália, quando soarem os sinos à meia-noite, todo mundo atirará pelas janelas as panelas velhas e os vasos rachados".
Ótimo! O meu ímpeto, modesto mas sincero, foi atirar-me eu próprio pela janela, tendo apenas no bolso, à guisa de explicação para as autoridades, um recorte do referido despacho. Mas seria levar muito longe uma simples metáfora, aliás praticamente irrealizável, porque resido num andar térreo. E, por outro lado, metáforas a gente não faz para a Polícia, que só quer saber de coisas concretas. Metáforas são para aproveitar em versos...
Atirei-me, pois, metaforicamente, pela janela do tricentésimo-sexagésimo-quinto andar do ano passado.
Morri? Não. Ressuscitei. Que isto da passagem de um ano para outro é um corriqueiro fenômeno de morte e ressurreição - morte do ano velho e sua ressurreição como ano novo, morte da nossa vida velha para uma vida nova.
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
A última noite de natal
Os grandes olhos claros e aguados
boiavam na sombra nevoenta, cheios de espanto. Esfregou-os, arrastou-se pesado e
entanguido, mal seguro à bengala,sentou-se num banco do jardim, fatigado,
suspirando, examinou a custo os arredores. Gastou uns minutos passeando as mãos
desajeitadas na gola do casaco. 0 exercício penoso enfureceu-o. Resmungou
palavras enérgicas e incompreensíveis, esforçou-se por dominar a tremura. Com
certeza era por causa do frio que os dedos caprichosos divagavam no pano
esgarçado e os queixos banguelos se moviam continuamente. Era por causa do frio,
sem dúvida. Se conseguisse abotoar o casaco e levantar a gola, os movimentos
incômodos cessariam.
Em que estava pensando ao chegar ali? Ia jurar que pensava em coisas agradáveis. Ou seriam desagradáveis? Pedaços de recordações incoerentes dançavam-lhe no espírito, acendiam-se, apagavam-se, como vaga-lumes, confundiam-se com os letreiros verdes, vermelhos, que se acendiam e apagavam também quase invisíveis na poeira nebulosa. Tentou reunir as letras, fixar a atenção nas mais próximas, brilhantes, enormes.
A igreja toda aberta resplandecia. O incenso formava uma neblina perturbadora. E, através dela, os altares refugiam como sóis, a luz das velas numerosas chispava nas auréolas dos santos.
Que doidice ! Não é que estava imaginando ver ali, nas transitórias claridades, a igreja vista sessenta anos antes? Tresvariava. Sacudiu a cabeça, afastou a lembrança importuna. De que servia desenterrar casos antigos, alegrias e sofrimentos incompletos?
O que devia fazer... Pôs-se a mexer os beiços, procurando nas trevas úmidas e leitosas que o envolviam o resto da frase. O que devia fazer... Repetiu isto muitas vezes, numa cantilena, distraiu-se olhando a chuva amarela, verde, vermelha, dos repuxos. Impossível distinguir as cores. Ultimamente a cidade ia escurecendo. As pessoas que transitavam junto aos canteiros sem flores eram vultos indecisos; .os prédios se diluíam nas ramagens das árvores, manchas negras; os letreiros vacilantes não tinham sentido.
O que devia fazer... De repente a idéia rebelde surgiu. Bem. Devia meter os botões nas casas e agasalhar o pescoço. Depois cruzaria os braços, aqueceria as mãos debaixo dos sovacos, ficaria imóvel e tranqüilo. Mas os dedos finos e engelhados avançavam, recuavam, não havia meio de governá-los. Se pudesse riscar um fósforo, chegá-lo a um cigarro, esqueceria os inconvenientes que o aperreavam: o frio, a dureza das juntas, o tremor, a zoeira constante, sussurro de maribondos assanhados. Dores errantes andavam-lhe no corpo, entravam nos ossos e vinham à pele, arrepiavam os cabelos, fixavam-se nas pernas, esmoreciam.
Agora não estava no banco do jardim, perto das estátuas, das árvores, do coreto, dos esguichos coloridos. Estava longe, a sessenta anos de distância, ajoelhado na grama, diante da igreja da vila. Os rostos embotados, que se dissociavam, juntaram-se no largo onde um padre velho dizia a missa da meia-noite. Fervilhavam matutos em redor das barracas, num barulho de feira, e uma sineta badalava impondo em vão respeito e silêncio. Os cavalinhos rodavam. Esgueiravam-se casais pelos cantos. O padre velho dirigia olhares fulminantes àquela cambada de hereges. Uma figura pequenina cantava os hinos ingênuos, de versos curtos, fáceis. Tudo parecera de chofre muito sério, eterno. Os hinos capengas elevavam-se, estiravam-se. A mulher tinha um rosto de santa e exigia adoração. Sessenta anos. As fachadas enfeitavam-se com lanternas de papel, janelas escancaradas exibiam presépios, listas de foguetes cortavam o céu negro. A sineta badalava, zangada. E o burburinho da multidão não diminuía.
Sessenta anos. Da cinza que ocultava os olhos frios saltou uma faísca; os alfinetes pregados na carne trêmula embotaram-se; o espinhaço curvo endireitou-se; um débil sorriso franziu os beiços murchos; os braços ergueram-se lentos, buscando a imagem de sonho.
Imagem de sonho, que doidice! Era apenas uma bonita criatura de bom coração. Ligara-se a ela. E dezenas de vezes tinham-se os dois ajoelhado ali na grama, olhando as lanternas, os presépios, os foguetes, o padre que dizia a missa da meia-noite. Algumas esperanças, muitos desgostos. Os meninos cresciam, engordavam. E no jardim da casa miúda um jasmineiro recendia.
Depois tudo fora decaindo, minguando, morrendo. Achara-se novamente só. Os filhos e os netos se haviam espalhado pelo mundo. Agora... Que extensa caminhada, que enormes ladeiras, pai do céu ! Já nem se lembrava dos lugares percorridos.
Conseguiu abotoar o casaco e levantar a gola.
Andar tanto e afinal chegar ali, arriar num banco, não perceber as letras que se acendiam . e apagavam.
Certamente àquela hora, diante duma igreja aberta, outro homem novo admirava outra pessoinha ajoelhada, sentia desejos imensos, formava planos absurdos. Os desejos e os planos iam desfazer-se como a. fumaça luminosa dos repuxos.
Em que estava pensando ao chegar ali? Ia jurar que pensava em coisas agradáveis. Ou seriam desagradáveis? Pedaços de recordações incoerentes dançavam-lhe no espírito, acendiam-se, apagavam-se, como vaga-lumes, confundiam-se com os letreiros verdes, vermelhos, que se acendiam e apagavam também quase invisíveis na poeira nebulosa. Tentou reunir as letras, fixar a atenção nas mais próximas, brilhantes, enormes.
A igreja toda aberta resplandecia. O incenso formava uma neblina perturbadora. E, através dela, os altares refugiam como sóis, a luz das velas numerosas chispava nas auréolas dos santos.
Que doidice ! Não é que estava imaginando ver ali, nas transitórias claridades, a igreja vista sessenta anos antes? Tresvariava. Sacudiu a cabeça, afastou a lembrança importuna. De que servia desenterrar casos antigos, alegrias e sofrimentos incompletos?
O que devia fazer... Pôs-se a mexer os beiços, procurando nas trevas úmidas e leitosas que o envolviam o resto da frase. O que devia fazer... Repetiu isto muitas vezes, numa cantilena, distraiu-se olhando a chuva amarela, verde, vermelha, dos repuxos. Impossível distinguir as cores. Ultimamente a cidade ia escurecendo. As pessoas que transitavam junto aos canteiros sem flores eram vultos indecisos; .os prédios se diluíam nas ramagens das árvores, manchas negras; os letreiros vacilantes não tinham sentido.
O que devia fazer... De repente a idéia rebelde surgiu. Bem. Devia meter os botões nas casas e agasalhar o pescoço. Depois cruzaria os braços, aqueceria as mãos debaixo dos sovacos, ficaria imóvel e tranqüilo. Mas os dedos finos e engelhados avançavam, recuavam, não havia meio de governá-los. Se pudesse riscar um fósforo, chegá-lo a um cigarro, esqueceria os inconvenientes que o aperreavam: o frio, a dureza das juntas, o tremor, a zoeira constante, sussurro de maribondos assanhados. Dores errantes andavam-lhe no corpo, entravam nos ossos e vinham à pele, arrepiavam os cabelos, fixavam-se nas pernas, esmoreciam.
Agora não estava no banco do jardim, perto das estátuas, das árvores, do coreto, dos esguichos coloridos. Estava longe, a sessenta anos de distância, ajoelhado na grama, diante da igreja da vila. Os rostos embotados, que se dissociavam, juntaram-se no largo onde um padre velho dizia a missa da meia-noite. Fervilhavam matutos em redor das barracas, num barulho de feira, e uma sineta badalava impondo em vão respeito e silêncio. Os cavalinhos rodavam. Esgueiravam-se casais pelos cantos. O padre velho dirigia olhares fulminantes àquela cambada de hereges. Uma figura pequenina cantava os hinos ingênuos, de versos curtos, fáceis. Tudo parecera de chofre muito sério, eterno. Os hinos capengas elevavam-se, estiravam-se. A mulher tinha um rosto de santa e exigia adoração. Sessenta anos. As fachadas enfeitavam-se com lanternas de papel, janelas escancaradas exibiam presépios, listas de foguetes cortavam o céu negro. A sineta badalava, zangada. E o burburinho da multidão não diminuía.
Sessenta anos. Da cinza que ocultava os olhos frios saltou uma faísca; os alfinetes pregados na carne trêmula embotaram-se; o espinhaço curvo endireitou-se; um débil sorriso franziu os beiços murchos; os braços ergueram-se lentos, buscando a imagem de sonho.
Imagem de sonho, que doidice! Era apenas uma bonita criatura de bom coração. Ligara-se a ela. E dezenas de vezes tinham-se os dois ajoelhado ali na grama, olhando as lanternas, os presépios, os foguetes, o padre que dizia a missa da meia-noite. Algumas esperanças, muitos desgostos. Os meninos cresciam, engordavam. E no jardim da casa miúda um jasmineiro recendia.
Depois tudo fora decaindo, minguando, morrendo. Achara-se novamente só. Os filhos e os netos se haviam espalhado pelo mundo. Agora... Que extensa caminhada, que enormes ladeiras, pai do céu ! Já nem se lembrava dos lugares percorridos.
Conseguiu abotoar o casaco e levantar a gola.
Andar tanto e afinal chegar ali, arriar num banco, não perceber as letras que se acendiam . e apagavam.
Certamente àquela hora, diante duma igreja aberta, outro homem novo admirava outra pessoinha ajoelhada, sentia desejos imensos, formava planos absurdos. Os desejos e os planos iam desfazer-se como a. fumaça luminosa dos repuxos.
Graciliano Ramos
(20 de dezembro de 1941).
(20 de dezembro de 1941).
Texto extraído do livro “Linhas Tortas”, Editora Record – Rio de Janeiro, 1983, pág. 222.
sábado, 2 de novembro de 2013
Aprendendo a viver
Thoreau era um filósofo americano que, entre coisas mais
difíceis de se assimilar assim de repente, numa leitura de jornal, escreveu
muitas coisas que talvez possam nos ajudar a viver de um modo mais inteligente,
mais eficaz, mais bonito, menos angustiado.
Thoreau, por
exemplo, desolava-se vendo seus vizinhos só pouparem e economizarem para um
futuro longínquo. Que se pensasse um pouco no futuro, estava certo. Mas «melhore
o momento presente», exclamava. E acrescentava: «Estamos vivos agora.» E
comentava com desgosto: «Eles ficam juntando tesouros que as traças e a ferrugem
irão roer e os ladrões roubar.»
A mensagem é
clara: não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã. Se você se sente infeliz
agora, tome alguma providência agora, pois só na sequência dos agoras é que você
existe.
Cada um de nós, aliás, fazendo um exame de consciência, lembra-se pelo menos de vários agoras que foram perdidos e que não voltarão mais. Há momentos na vida que o arrependimento de não ter tido ou não ter sido ou não ter resolvido ou não ter aceito, há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda.
Cada um de nós, aliás, fazendo um exame de consciência, lembra-se pelo menos de vários agoras que foram perdidos e que não voltarão mais. Há momentos na vida que o arrependimento de não ter tido ou não ter sido ou não ter resolvido ou não ter aceito, há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda.
Ele queria que fizéssemos agora o que queremos fazer. A vida inteira Thoreau pregou e praticou a necessidade de fazer agora o que é mais importante para cada um de nós.
Por exemplo: para os jovens que queriam tornar-se escritores mas que contemporizavam — ou esperando uma inspiração ou se dizendo que não tinham tempo por causa de estudos ou trabalhos — ele mandava ir agora para o quarto e começar a escrever.
Impacientava-se também com os que gastam tanto tempo estudando a vida que nunca chegam a viver. «É só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos que começamos a saber.» E dizia esta coisa forte que nos enche de coragem: «Por que não deixamos penetrar a torrente, abrimos os portões e pomos em movimento toda a nossa engrenagem?» Só em pensar em seguir o seu conselho, sinto uma corrente de vitalidade percorrer-me o sangue. Agora, meus amigos, está sendo neste próprio instante.
Thoreau achava que o medo era a causa da ruína dos nossos momentos presentes. E também as assustadoras opiniões que nós temos de nós mesmos. Dizia ele: «A opinião pública é uma tirana débil, se comparada à opinião que temos de nós mesmos.» É verdade: mesmo as pessoas cheias de segurança aparente julgam-se tão mal que no fundo estão alarmadas. E isso, na opinião de Thoreau, é grave, pois «o que um homem pensa a respeito de si mesmo determina, ou melhor, revela seu destino».
E, por mais inesperado que isso seja, ele dizia: tenha pena de si mesmo. Isso quando se levava uma vida de desespero passivo. Ele então aconselhava um pouco menos de dureza para com eles próprios. O medo faz, segundo ele, ter-se uma covardia desnecessária. Nesse caso devia-se abrandar o julgamento de si próprio. «Creio», escreveu, «que podemos confiar em nós mesmos muito mais do que confiamos. A natureza adapta-se tão bem à nossa fraqueza quanto à nossa força.» E repetia mil vezes aos que complicavam inutilmente as coisas — e quem de nós não faz isso? —, como eu ia dizendo, ele quase gritava com quem complicava as coisas: simplifique! simplifique!
Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1968)'
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